Isvonaldo sou Protestante

Isvonaldo sou Protestante

quinta-feira, 6 de junho de 2013


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Por Rev. Leandro Lima


No momento da vinda de Jesus, ele estabelecerá um reino de mil anos ou o reino eterno? Esse assunto divide os cristãos evangélicos. Nenhum assunto é tão controvertido em teologia do que o Milênio, e nenhum texto causa mais discussão do que Apocalipse 20.1-10.

Entraremos nessa discussão acalorada, porém, não querendo aqui imprimir uma posição intransigente, e até quase fanática, sobre um assunto que diz respeito ao futuro, e do qual ninguém tem certeza absoluta. Há tanta controvérsia sobre este assunto que talvez não consigamos achar duas pessoas que pensem exatamente igual sobre a questão. Há tanta especulação também, que faz com que seja um dos assuntos mais ingratos a se tratar em escatologia.

Trataremos do assunto como precisa ser tratado, ou seja, abordando as principais visões, e emitindo algumas opiniões sobre cada uma delas, e até mesmo assumindo uma posição. No entanto, entendemos que é um assunto que não deveria dividir os cristãos. No final, todos creem que Jesus virá e estabelecerá um reino eterno. A esperança deste reino não deve diminuir, quer exista um reino intermediário, quer não.

Correntes Milenistas

Há basicamente quatro posições em relação ao milênio. São elas: Amilenismo, Pós-Milenismo, Pré-Milenismo Histórico e Pré-Milenismo Dispensacionalista.

O termo “Amilenismo”, como diz Hoekema, “não é muito feliz”[1], porque sugere que não exista um Milênio. Os amilenistas acreditam no milênio de Apocalipse 20, porém, não acham que diga respeito a um reino de mil anos literais que Cristo estabelecerá na terra depois da sua vinda. O Amilenismo entende que o milênio de Apocalipse 20 já está em atividade nesse momento, pois começou com a primeira vinda de Jesus e terminará na segunda vinda com a instauração dos novos céus e nova terra. Por isso, para o Amilenismo, o Milênio não é literal, mas espiritual.

O Pós-Milenismo defende que o Milênio também é antes da segunda vinda, porém, acha que será um tempo de prosperidade e paz advinda da pregação do Evangelho em todo o mundo. Para o Pós-Milenismo, o mundo ser tornará gradativamente um lugar muito bom, onde o mal será reduzido ao mínimo e as nações cooperarão entre si, cristianizando o mundo todo. No final desta era gloriosa, Satanás será solto, e então, Jesus voltará e o destruirá.

O Pré-Milenismo Histórico interpreta literalmente o texto de Apocalipse 20.1-10, e entende que o Milênio será estabelecido na segunda vinda de Jesus, e será um reino de mil anos sobre a terra, onde o Senhor regerá as nações com cetro de ferro, minimizará o mal existente, e estabelecerá uma era de ouro, reinando a partir de Jerusalém. Ao final do Milênio Satanás será solto e convencerá as nações a fazerem guerra contra Jerusalém. Então, descerá fogo do céu e consumirá as nações rebeldes. Em seguida o Senhor estabelecerá o Juízo e o tempo eterno.

O Pré-Milenismo Dispensacionalista se parece com o Pré-Milenismo Histórico em sua expectativa por um milênio futuro e literal, porém, se difere em detalhes específicos. O Dispensacionalismo distingue pelo menos duas vindas de Jesus, a primeira para o arrebatamento dos salvos, e a segunda depois de sete anos de tribulação para o estabelecimento do Milênio. No Dispensacionalismo há um tratamento diferente entre a igreja e Israel. Mesmo no Milênio estes dois grupos serão distinguidos. O Dispensacionalismo entende que a igreja é uma espécie de parêntesis na história de Deus com Israel. Na primeira vinda de Jesus, o Evangelho foi oferecido aos judeus, mas como eles o rejeitaram, Deus o ofereceu aos gentios e formou a igreja, porém no fim, voltará a tratar com Israel. Uma das características principais do Pré-Milenismo, seja Histórico ou Dispensacionalista é a interpretação literal das passagens do Antigo Testamento sobre a restauração de Israel, e também do livro do Apocalipse.

O seguinte quadro nos ajuda a entender as diferenças entre esses quatro sistemas[2]:

Todas as quatro posições acima têm encontrado defensores capacitados, e qual é a verdadeira é uma coisa que só saberemos depois da vinda de Jesus. De qualquer forma, o que pode ser dito brevemente sobre cada uma delas é que o Pós-Milenismo que esteve muito em voga nos séculos passados, depois das guerras mundiais e do avanço da fome e das doenças pelo mundo, caiu em descrédito, uma vez que a sonhada prosperidade parece estar muito longe. O Pré-Milenismo Dispensacionalista é bastante recente, e bastante complicado de se explicar. O maior problema dele é a distinção radical que faz entre Israel e igreja, dividindo a volta de Jesus e a ressurreição em duas ou três etapas. O Pré-Milenismo Histórico é mais sóbrio em sua visão, entendendo que haverá apenas uma vinda de Jesus. O problema desse sistema é o excesso de literalismo. O Amilenismo é, na nossa opinião, o que faz mais justiça ao ensino bíblico.

O Aprisionamento de Satanás

O texto de Apocalipse 20.1-3 descreve o aprisionamento de Satanás. O texto diz: “Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo”. Primeiramente devemos lembrar que este texto foi escrito para cristãos no primeiro século. O que significava para eles? Significava que as coisas não eram como pareciam ser. Enquanto os cristãos morriam diariamente nos circos e anfiteatros romanos, parecia realmente que Satanás estava vencendo, mas João escreve para mostrar que as coisas não são bem assim, elas não são o que parecem ser.

O valente amarrado[3]

Para entendermos o significado de Apocalipse 20.1-3, precisamos voltar ao início do ministério de Jesus. Os fariseus acusavam Jesus de expulsar demônios com o poder do próprio Satanás, por isso Jesus respondeu: “Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? E, então, lhe saqueará a casa” (Mt 12.29). A palavra “amarrar” aqui é exatamente a mesma na língua grega usada em Apocalipse 20.2 para “segurar”.

Esta tarefa de “amarrar” ou “segurar” Satanás começou na primeira vinda de Cristo. Quando Jesus enviou os 70 discípulos para pregar o Evangelho, eles voltaram radiantes porque até os demônios lhe eram submissos, então Jesus disse: “Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.17-18). Note que a queda de Satanás é associada à pregação do Evangelho. Do mesmo modo, quando alguns gregos vieram para conversar com Jesus, ele disse: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (Jo 12.31-32).

É preciso notar que a palavra “expulsar” no texto grego é exatamente a mesma de Apocalipse 20.3 onde é traduzida como “lançou”. O mais importante, porém, é que com a morte de Cristo e a expulsão de Satanás, Jesus disse que atrairia a si todos os homens. Não apenas judeus, mas também gregos, romanos, chineses, portugueses, brasileiros, etc. Até a primeira vinda de Jesus, apenas Israel conhecia o Senhor, sendo que Satanás prendia as demais nações em ignorância praticamente absoluta.

Mas, com a vinda do Senhor, o poder do diabo foi drasticamente limitado e ele agora já não pode mais enganar as nações, pois não pode impedir a pregação do Evangelho em toda a terra[4]. A única restrição ao Diabo em Apocalipse 20.3 é que ele não pode mais enganar as nações, portanto, o amilenismo entende que Apocalipse 20.1-3 narra, não uma prisão futura de Satanás, mas a restrição que Deus impôs sobre ele com a primeira vinda e Jesus. Foi graças a este aprisionamento que alguns simples galileus do primeiro século, em algumas décadas, conseguiram levar o Evangelho a todo o mundo civilizado.

Hoje, não há um único país que não tenha algum missionário e muitos convertidos ao cristianismo. A Bíblia já foi traduzida em mais de mil línguas. Portanto, o milênio do Apocalipse 20 é a realidade do mundo atual. Ele começou com a primeira vinda de Cristo. Os 1000 anos do capítulo 20 correspondem aos 1260 dias das outras partes do livro, ou seja, o total de anos da dispensação cristã, e é apenas um número simbólico.

Alguém pode dizer: mas como Satanás está amarrado se o mundo está desse jeito? ele está amarrado, mas não completamente impossibilitado de atuar. O que ele não pode fazer, segundo Apocalipse 20.3 é enganar as nações. É dito que após o fim do Milênio ele reúne as nações para pelejar contra a igreja (Ap 20.8). No tempo presente, ele não consegue fazer esse tipo de movimentação de nações contra o povo de Deus[5], até porque, há nações que ainda são cristãs. Além disso, deve ser verificado que nosso Senhor e os Apóstolos empregaram palavras ainda mais fortes do que “prender” ou “expulsar” para descrever a derrota de Satanás que já aconteceu.

Além dos textos que já vimos acima, podemos citar Hebreus 2.14: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele (Jesus), igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo”. Este texto está dizendo que Jesus destruiu Satanás com sua morte. Esta é uma expressão bem mais forte do que “prender” ou “lançar no abismo”. Diante deste texto, alguém pode negar que Satanás já está destruído? Mas então como ele continua agindo? ele está destruído porque já não tem qualquer chance de vitória.

Colossenses 2.15 também deixa bem claro que Satanás está totalmente derrotado: “E, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz”. A linguagem deste texto é militar. Paulo está comparando o que Jesus fez com Satanás e suas hostes, com o que os exércitos romanos faziam com os vencidos. Naquele tempo, quando um exército vencia o outro, os perdedores eram despojados de todos os seus bens, e às vezes até das próprias roupas. Em seguida eram amarrados e obrigados a desfilar pelas ruas, numa humilhação pública. Jesus despojou Satanás e o humilhou perante todos com sua morte e ressurreição. Portanto, a expressão “prendeu por mil anos” pode significar perfeitamente a obra que Jesus realizou na cruz contra Satanás.

Sequência não-cronológica

Os Pré-Milenistas interpretam o texto de Apocalipse 20 como acontecendo depois da volta de Jesus, porque entendem que o capítulo 20 segue cronologicamente o capítulo 19. Porém, o Apocalipse não é um livro que deva ser lido em ordem cronológica. Narrando coisas que dizem respeito ao fim, João freqüentemente volta aos primórdios do Evangelho a fim de dar o entendimento global da batalha do mal contra o bem.

Ao chegarmos no capítulo 20 do Apocalipse, já fomos informados como praticamente todos os inimigos de Cristo encontrarão o seu fim. Mas, ainda resta um, o pior de todos, Satanás. Sua derrota já foi decretada e anunciada (12.12), mas não foi ainda explicada, pois João deixou esta explicação para o final. João já disse que Satanás perdeu seu lugar no céu, após a batalha com Miguel (Ap 12). O que ele está fazendo no capítulo 20 é demonstrar como foi realmente essa derrota.

Não podemos entender Apocalipse 20-22 como sendo uma continuação do capítulo 19.

Provavelmente a maneira mais correta de interpretar o Apocalipse é entendendo que são descritas sete seções paralelas. É como se João contasse a mesma história pelo menos sete vezes, porém, cada vez, ele acrescenta detalhes que não estavam nas descrições anteriores. É somente no último ciclo, ou seja, quando ele reconta a história pela última vez, que ela fica completa. A divisão que Hendriksen propõe é a seguinte:

A Primeira Seção: “Cristo no meio dos sete candeeiros” (Ap 1-3). 
A Segunda Seção: “A Visão do céu e dos Sete Selos” (Ap 4.1-7.17). 
A Terceira Seção: “As Sete Trombetas” (Ap 8-11). 
A Quarta Seção: “O Dragão Perseguidor” (Ap 12.2-14.20). 
A Quinta Seção: “As Sete Taças” (Ap 15.1-16.21). 
A Sexta Seção: “A queda da Babilônia” (Ap 17.1-19.21). 
A Sétima Seção: “A Grande Consumação” (Ap 20.1-22.21)[6].

De fato no capítulo 20 se inicia uma nova seção que vai descrever outra vez a dispensação cristã como um todo, desde a primeira vinda de Jesus até sua segunda vinda e o juízo final, como fizeram todas as seis seções ou ciclos anteriores. Repare que a segunda vinda de Cristo e o julgamento do mundo haviam sido anunciados em todas as seis seções anteriores.

Veja como o sexto selo na segunda seção descreve o fim do mundo em cores vívidas (6.12-17). Da mesma forma na sétima trombeta da terceira seção, a consumação de todas as coisas é claramente descrita (11.15-19). E este acontecimento é também descrito em 14.14-20 no final da quarta seção, com o acréscimo de detalhes de como será a separação entre os crentes e os ímpios.

Note que neste texto os crentes são ceifados e recolhidos no celeiro, enquanto que os ímpios são pisados como se fossem uvas. Assim também o sétimo flagelo da quinta seção descreve o fim de tudo, mas aqui é pela primeira vez descrita uma batalha antes do fim, a batalha do Armagedom (16.12-21). Mas, a explicação mais clara desta batalha está no final da sexta seção onde o cavaleiro montado no cavalo branco desce para destruir os exércitos do diabo e dos seus aliados. Portanto, João está recontando pela sétima e última vez como é a derrota do mal.

É muito difícil que Apocalipse 20 seja uma descrição do que acontece depois de Apocalipse 19, pois no capítulo 19 já aconteceu a consumação. Os ímpios foram vindimados na batalha do Armagedom e os homens rebeldes foram mortos (19.21). No capítulo 20 a história é recontada a fim de explicar como será destruído o último inimigo, Satanás, e assim, todos os detalhes se completam.

Em defesa desta posição Hendriksen mostra o paralelo que há entre os capítulos 11-14 e 20-22 [7]:

Os Santos reinam

Em seguida, Apocalipse 20.4-6 narra um reinado milenar. Aqueles que seguem uma abordagem cronológica do capítulo 20, dizem que todos estes acontecimentos seguem o 19. Então, na segunda vinda de Jesus, Satanás seria preso, e, em seguida, haveria a primeira ressurreição e os crentes reinariam com Cristo por mil anos na terra. Depois destes mil anos haveria a segunda ressurreição somente dos ímpios para o juízo. Nossa dificuldade com esta interpretação já foi descrita acima. Não cremos que o capítulo 20 seja uma seqüência do 19, mas que recomeça um novo ciclo. Vimos que a derrota e a prisão de Satanás já aconteceram na primeira vinda de Jesus.

Tronos no céu

Mas, há uma dificuldade ainda maior em pensar que o milênio começa com a ressurreição dos crentes. João não diz que vê corpos reinando com Cristo na terra, mas “almas” (Ap 20.4). Ele diz que viu tronos, e sentados nestes tronos aqueles que têm a autoridade de julgar. Quem estão assentados nestes tronos? São as almas que João viu. O texto grego não contém a expressão “vi ainda”, como se fosse um grupo diferente daquele que está assentado nos tronos. Diz simplesmente: “E as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tão pouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante os mil anos” (Ap 20.4).

Note que estas almas estão “vivendo” com Cristo e reinando por mil anos. A expressão “e viveram” (no grego ezesan) não significa necessariamente “e ressuscitaram”, até porque a palavra grega “ressuscitaram” é outra (anastásei). O texto nos diz que as almas dos que morreram estão “vivendo” e reinando com Cristo por mil anos, que é o tempo inteiro da dispensação cristã, desde a primeira vinda de Cristo até a segunda vinda. Além disso, estes tronos certamente devem estar no céu, pois como diz W. J. Grier, “sempre que se faz referência a tronos, no Apocalipse, quer se trate do de Cristo, quer dos de Seu povo, são localizados no céu”[8]. (Ver Ap 4.4).E como diz Kistemaker, “o vocabulário de tronos, juízo e almas representa uma cena celestial”[9].

Quando João diz que os restantes dos mortos não reviveram “até que se completassem os mil anos” e chama o acontecimento de “viver” de primeira ressurreição, ele não está dizendo que isso vai acontecer depois do milênio. Aliás, a palavra “reviveram” é a mesma usada para “viveram” no verso anterior. O que João quer dizer é que os mortos sem Cristo continuaram mortos física e espiritualmente, e depois do milênio vão ressuscitar, mas para entrar na morte eterna. Portanto, a primeira ressurreição aqui é o “viver” com Cristo no céu.

Os ímpios não vão “viver” com Cristo no céu até o dia da ressurreição final. Aquele que tem parte na primeira ressurreição (espiritual) vai para o céu, e não precisa temer a segunda morte que é o Lago de Fogo. Nem seria preciso falar algo assim se os cristãos já estivessem com seu novo corpo aqui na terra. Num resumo: “Os que pertencem a Cristo morrem uma vez, porém ressurgem duas vezes (espiritual e fisicamente), enquanto os que o têm rejeitado ressurgem uma vez, porém morrem duas vezes (física e espiritualmente)”[10].

As pessoas que João viu no céu (decapitados como Paulo e João Batista) ascenderam espiritualmente ao céu (primeira ressurreição), e ressuscitarão fisicamente na vinda de Jesus. As pessoas que morrem sem Cristo não vão ao céu (não tem parte na primeira ressurreição), mas ressuscitarão na vinda de Jesus para o grande julgamento.

A situação dos mortos

Um argumento que reforça esta interpretação vem de outras partes do livro de Apocalipse. Devemos sempre lembrar que João está escrevendo para cristãos do primeiro século. Aqueles cristãos estavam sofrendo grandes perseguições. Muitos já haviam morrido por causa do Evangelho. Era natural que a igreja se perguntasse: O que aconteceu com os cristãos que foram martirizados? Deus não vai fazer nada para vingá-los? Em praticamente todas as seções, João dá informações sobre esses mortos.

No capítulo 6, ele diz que viu as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Essas almas estavam debaixo do altar de Deus, e clamavam por vingança. Foi lhes dito que deviam esperar, vestidas de vestiduras brancas, até que se completasse o número dos mártires (Ver Ap 6.9-11).

No capítulo 7, João dá mais informações sobre os mártires. Ele diz que “se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário. E aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap 7.15-17). Ou seja, João está tentando consolar os amigos e parentes das vítimas, dizendo que elas estão numa posição privilegiada.

No capítulo 14, João diz que os mortos no Senhor são “bem-aventurados”, podem descansar de suas fadigas, pois suas obras os acompanham (Ap 14.13). No capítulo 20, ele torna a ver as almas destes mártires, e agora acrescenta que além de estarem num estado de bem-aventurança, estão reinando com Cristo e serão os próprios juízes de seus algozes (Ap 20.4).

Portanto, na sequência lógica do Apocalipse, este texto não está falando coisa alguma sobre um reino literal e terreno de Cristo sobre a terra durante mil anos, mas da situação dos mortos em Cristo no céu, durante todo o tempo da dispensação cristã.

Como já vimos, aqueles que reinam com Cristo por mil anos não são pessoas ressuscitadas fisicamente, mas almas que reinam no céu. Neste ponto, há mais uma dificuldade para a interpretação pré-milenista que é o fato de que o texto localiza apenas dois grupos de pessoas que reinam com Cristo, e são os “decapitados por causa do testemunho de Jesus e os que não adoraram a besta”. Cadê o resto dos crentes mortos?

Além disso, está falando apenas dos que morreram, e se eles ressuscitaram fisicamente, onde estão os vivos que serão transformados? Eles não participam do milênio? Como diz Hoekema, “não há nada dito aqui acerca de crentes que não morreram, mas ainda estavam vivos quando Cristo retornou”[11]. Mas quando lembramos que João está querendo explicar justamente a situação dos mártires, toda dificuldade desaparece.

Números não literais

A interpretação literal dos mil anos no texto não se justifica facilmente. Qualquer pré-milenista sabe, por exemplo, que a corrente que prende Satanás não é física, é espiritual. Portanto, ninguém interpreta isto literalmente. Então, por que o número 1000 deve ser interpretado literalmente? Além disso, porque nessa passagem este número deve ser interpretado de forma literal, se todos os outros números do Apocalipse não são? Por exemplo, será que há sete Espíritos Santos, ou apenas um? (Ap 3.1; 4.5). Será que Jesus é literalmente um Cordeiro que tem sete chifres e sete olhos? (Ap 5.6). Será que correu sangue pela morte dos ímpios por 1600 estádios (296 Km)? (Ap 14.20). Será que a Nova Jerusalém possui 12000 estádios (2219 Km)? (Ap 21.16). Evidentemente que ninguém interpreta estes números literalmente, pois são claramente simbólicos. Mas, então por que o número 1000 teria que ser literal em Apocalipse 20.3-4.

Ainda deve ser considerado que a existência de um milênio literal somente pode ser deduzida do texto de Apocalipse 20.1-4. Nenhum outro lugar na Escritura fala em algo parecido. E como já vimos, Apocalipse 20.1-4 não precisa ser interpretado literalmente. No restante das Escrituras não existe a menor indicação de um milênio intermediário entre a era atual e a era eterna. Jesus, nas parábolas (Mt 13.24-30, 36-43, 47-50; Lc 19.11-27; Mt 25.14-30), e na descrição do julgamento em Mateus 25, não falou de um reino intermediário depois da sua vinda. Ele disse que sua vinda traria o julgamento e o estado final dos homens. A mesma ideia pode ser vista em toda a Bíblia. Sempre que o Novo Testamento fala do futuro não diz que haverá um reino para Israel na Segunda Vinda de Jesus, mas que quando Jesus voltar, será estabelecido o Novo céu e a nova terra (2Pe 3.1-13).

A Última Batalha

Em Apocalipse 20.7-10 há a descrição da rebelião final, onde Satanás reúne as nações para pelejarem contra o Senhor. Que batalha é esta, se no capítulo 19 os inimigos de Cristo já foram destruídos? Que nações são estas cujo número é como a areia do mar, se os homens já foram mortos em Apocalipse 19.21? Na verdade, não são batalhas diferentes, mas duas descrições da mesma batalha. É dito que no fim do milênio, Satanás será solto. Solto de quê? De sua prisão que o incapacitava de enganar as nações a fim de reuni-las contra a igreja de Deus. Note que ele vai seduzir as nações nos quatro cantos da terra.

Que esta é a batalha do Armagedom podemos inferir por causa da referência a Gogue e Magogue. Gogue era o príncipe de Magogue. É dito em Ezequiel 38.2 que Gogue também é príncipe de Rôs, Meseque e Tubal. Estas três regiões ficavam em algum lugar onde hoje é a Turquia. E todo este território foi conquistado depois de Ezequiel pelos selêucidas, principalmente nos tempos de Antíoco Epifânes o mais cruel inimigo dos judeus, que foi governador da Síria. Este homem foi o mais perfeito tipo do Anticristo no Antigo Testamento. Portanto, a referência a Gogue, nesta última batalha, é uma referência novamente às forças do Anticristo que tentarão pelejar contra o Cordeiro.

João não descreve a derrota do Anticristo aqui, porque já a descreveu antes, e agora ele está interessado em descrever a derrota do Dragão, que na mesma batalha do Armagedom na única vinda de Cristo, foi também aprisionado no lago de fogo. O fato de João dizer que a besta e o falso profeta já estavam no lago de fogo (Ap 20.10) significa apenas que ele já havia narrado este acontecimento antes, até porque a besta e o falso profeta são o governo e a religião anticristã de Satanás. João deixou para narrar no fim, a maneira como o Dragão será destruído.

O Cumprimento das Profecias do AT

Talvez a maior razão porque os pré-milenistas insistem num reino literal e terreno de mil anos seja por causa de sua visão das profecias do Antigo Testamento. Como já dissemos, não há qualquer texto que fale em mil anos de reino, mas os pré-milenistas olham para as profecias de Isaías, Ezequiel, Amós, Zacarias e outros, que falam sobre um futuro glorioso para Israel, e imaginam que isto acontecerá numa volta futura de Israel das várias nações ao redor do mundo, para a terra da promessa. Pensam que isto precisa se cumprir literalmente. Nesse sentido, vêem o retorno de Israel para a Palestina após a Segunda Grande Guerra, como um indício do cumprimento histórico das
profecias.

A interpretação amilenista entende que estas profecias se cumpriram literalmente na volta de Israel do cativeiro da Babilônia, ou se cumprem espiritualmente na igreja que é o Israel no Novo Testamento, ou ainda se cumprem no Novo céu e nova terra. Não há a necessidade de um reino milenar para que elas se cumpram.

Primeiramente devemos entender que interpretar literalmente todas as profecias do Antigo Testamento pode conduzir a absurdos. Como nota W. J. Grier, “a própria profecia do Velho Testamento contém uma advertência contra tal literalismo. Deus disse que falaria aos profetas do Antigo Testamento em sonhos e visões e em palavras obscuras (Nm 12.6-8; Os 12.10)”[12]. Por exemplo, quando Ezequiel diz que o povo retornará à sua terra diz que Davi reinará sobre os que voltarem (Ez 37.24). Se isso for interpretado de forma literal, Davi precisaria reencarnar para reinar sobre Israel. E além disso, o que não pode ser esquecido é que muitas profecias proferidas à nação de Israel eram condicionais.

Por exemplo, quando Deus chamou o povo de Israel do Egito lhes prometeu uma nova terra, porém, devido à desobediência deles, foram privados desse benefício (Nm 14.23). Com relação ao próprio reino eterno da descendência de Davi, a promessa era condicional. Davi entendeu isso, pois disse em seu leito de morte ao seu filho Salomão:

"Eu vou pelo caminho de todos os mortais. Coragem, pois, e sê homem! Guarda os preceitos do SENHOR, teu Deus, para andares nos seus caminhos, para guardares os seus estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus testemunhos, como está escrito na lei de Moisés, para que prosperes em tudo quanto fizeres e por onde quer que fores; para que o SENHOR confirme a palavra que falou de mim, dizendo: Se teus filhos guardarem o seu caminho, para andarem perante a minha face fielmente, de todo o seu coração e de toda a sua alma, nunca te faltará sucessor ao trono de Israel." (1Rs 2.2-4).

Do mesmo modo, as promessas de Deus de prosperidade para a nação de Israel estavam condicionadas à obediência. Uma vez que a nação não permaneceu em obediência, Deus não se viu obrigado a cumprir todas as promessas.

Ao considerar algumas das principais profecias do Antigo Testamento, as quais são geralmente usadas para a defesa de um Milênio literal e terrestre, podemos perceber que elas não exigem um cumprimento literal num Milênio. Uma das principais passagens do Antigo Testamento usadas para defender o Milênio é Isaías 65.17-25. Neste texto Isaías fala da restauração de todas as coisas: “Não haverá mais nela criança para viver poucos dias, nem velho que não cumpra os seus; porque morrer aos cem anos é morrer ainda jovem, e quem pecar só aos cem anos será amaldiçoado” (Is 65.20).

Diz que: “A longevidade do meu povo será como a da árvore, e os meus eleitos desfrutarão de todo as obras das suas próprias mãos” (Is 65.22). E diz que naquele tempo:“O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o SENHOR” (Is 65.25). Os pré-milenistas dizem que esta descrição não pode se referir ao tempo eterno porque há referência a morte e ao pecado. Porém deve ser entendido que Isaías usa figuras de coisas que os homens podem entender, mas está falando dos “novos céus e nova terra”, conforme ele deixa bem claro no verso 17.

E o Apocalipse diz que os novos céus e nova terra compõem o estado final do universo e não o Milênio. Isaías descreve os tempos eternos em linguagem que as pessoas daquele tempo podiam entender. Ele usa expressões que indicam longevidade e prosperidade em linguagem que deve ser entendida figurada e não literalmente.

Outro texto bastante usado para a defesa do Milênio é o capítulo 11 de Isaías. O texto diz que um rebento de Jessé será levantado (vs. 1), o qual terá sabedoria para reconduzir o povo (vs. 2-5). Neste tempo, “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará (...) A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (vs. 6-9). Esta também não é uma descrição do Milênio. Ela se parece bastante com a outra descrição que já vimos acima no capítulo 65, e que Isaías disse pertencer à nova terra e aos novos céus. Isaías está falando de um tempo de perfeição, onde a terra se encherá do conhecimento do Senhor. Isso é muito superior ao que teria que acontecer no Milênio onde ainda haveria povos dispostos a se rebelar contra o Senhor. Dos versos 10-16 Isaías fala da restauração de Israel.

Não podemos entender esta passagem sem lembrar que o povo de Israel foi levado cativo para a Assíria e o povo de Judá para a Babilônia. Isaías diz que o povo voltaria para sua terra. Isto de fato se cumpriu 70 anos depois do cativeiro, quando o povo retornou do Exílio. O verso 16 diz: “Haverá caminho plano para o restante do seu povo, que for deixado, da Assíria, como o houve para Israel no dia em que subiu da terra do Egito”. Este verso teve um cumprimento literal no dia em que Israel voltou do cativeiro.

É evidente que a profecia vai além disso, mas por que pensar num Milênio intermediário se a profecia pode se referir em linguagem figurada aos novos céus e nova terra? Como diz Hoekema, “na há razão obrigatória para entendermos este tipo de passagens do Velho Testamento, de modo a descrever um reino milenar futuro”13. Estas profecias se cumprem no retorno de Israel do cativeiro, na primeira vinda de Jesus, ou finalmente descrevem a nova terra que será estabelecida na segunda vinda de Jesus [14].

O próprio Novo Testamento interpreta profecias que descrevem a restauração de Israel como não literais. Um exemplo basta para perceber isso. Amós 9.11-12 diz:“Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade; para que possuam o restante de Edom e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz estas coisas”. Em Atos 15.14-18 temos a interpretação do cumprimento figurado desta profecia. Tiago entende que se cumpriu quando Deus incluiu os gentios na comunidade do povo de Deus. Portanto, se o próprio Novo Testamento demonstra que as profecias do Antigo Testamento não precisam ser cumpridas literalmente, por que nós deveríamos insistir nisso?

Dificuldades adicionais

Falar num milênio terreno envolve algumas contradições adicionais: Por que razão, depois dos crentes terem ressuscitado ainda teriam que viver mil anos numa terra imperfeita? De certa forma, as coisas não seriam muito diferentes do que são hoje. Somos convertidos e desejamos uma nova era, porém ainda temos que sofrer com este mundo decaído. Imagine pessoas já ressuscitadas ainda tendo que viver numa terra decaída.

Outra coisa estranha é a idéia de que haverá pessoas com corpo glorificado vivendo junto com pessoas sem corpo glorificado. Que tipo de relacionamento poderia existir entre essas pessoas. Umas morrem, outras são eternas. E como podem as nações se rebelarem contra o Senhor depois do milênio na soltura de Satanás? Não terá adiantado nada os mil anos de prosperidade do Senhor na terra? Finalmente, é muito estranha a idéia de haver salvação depois da vinda do Senhor. Como serão salvos os ímpios durante o milênio? Eles terão que ouvir o Evangelho e crer?

A Bíblia diz que fé é acreditar no que não pode ser visto (Hb 11.1), mas naquele momento todos verão Jesus reinando dum trono terreno em Jerusalém. Isto seria injusto, se considerarmos que todos os demais que viveram antes do milênio tiveram que crer com bem menos evidência. Embora não possamos ser dogmáticos, porque o Senhor conduzirá a história segundo seu propósito, estas observações demonstram que a existência de um Milênio literal traz mais complicações do que soluções.

Concluindo, percebemos que há evidências de sobra para não interpretar o texto de Apocalipse 20.1-10 de forma literal. Mas insistimos na tese de que este assunto não deve dividir os cristãos. Ter expectativas diferentes em relação à segunda vinda é melhor do que não ter expectativa alguma. O que importa é que ele virá, e que haverá pessoas o aguardando. Quer naquele momento ele inaugure o milênio, quer inaugure o tempo eterno, de qualquer maneira, estaremos para sempre juntos com o Senhor.

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Notas:
1 Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, p. 223.
2 O quadro é retirado de Paul Enns. The Moody Handbook of Theology, Tópico: “Amillennialism”.
3 A exposição a seguir segue em linhas gerais William Hendriksen. Mais Que Vencedores, p. 217-225.
4 Ver Simon Kistemaker. Apocalipse, p. 673-674.
5 Ver W. J. Grier. O Maior de Todos os Acontecimentos, p. 126-127.
6 Ver William Hendriksen. Mais Que Vencedores, p. 26-35.
7 William Hendriksen. Mais Que Vencedores, p. 218.
8 W. J. Grier. O Maior de Todos os Acontecimentos, p. 128.
9 Simon Kistemaker. Apocalipse, p. 675.
10 Simon Kistemaker. Apocalipse, p. 680.
11 Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, p. 244.
12 W. J. Grier. O Maior de Todos os Acontecimentos, p. 36.
13 Antony Hoekema. A Bíblia e o Futuro, p. 274.
14 Outras passagens que podem ser interpretadas neste sentido sem sugerir a idéia do Milênio são: Jr 23.3-8; Ez 34.12-13; Ez 36.24; Zc 8.7-8; Am 9.14-15, etc.

domingo, 2 de junho de 2013

Parada da vergonha

Que benefícios as megapasseatas trazem para o Brasil?

A onda de violência em São Paulo, Rio de Janeiro e importantes cidades brasileiras assusta. Dentistas são incendiados vivos. Mulheres e crianças são assassinadas por quem deveria protegê-las. Arrastões acontecem em restaurantes. Estupros ocorrem em transportes públicos. Balas perdidas encontram inocentes. Viciados em crack se drogam em praça pública. Sequestros relâmpago, latrocínios, assaltos... E muito mais!

Enquanto isso, a grande mídia só fala da maior Parada do Orgulho Gay do mundo, em São Paulo. Orgulho de quê? Orgulho de quem? Com todo o respeito aos milhões de participantes dessa megamarcha, ela muda em quê a vida dos cidadãos brasileiros? Em nada! Ela só serve para fins comerciais e não beneficiam a população como um todo. Gostaria muito que a multidão que participa de marchas capitalistas — e também do Carnaval e de outras megapasseatas, inclusive algumas ditas evangélicas — se reunisse para a Marcha da Vergonha! Isso mesmo. Vergonha de ser brasileiro.

Não tenho vergonha das coisas boas do Brasil, especialmente das maravilhas que Deus criou e das pessoas honestas e trabalhadores que vivem aqui. Tenho vergonha de pertencer a um país de políticos corruptos e egoístas, de uma nação que não valoriza a vida humana, que não se indigna e pouco se sensibiliza com a morte e o sofrimento de seus filhos. Gostaria muito que todos os cristãos brasileiros, em vez de reunirem para megashows para gritar e pular, se unissem para chorar copiosamente pelo que está acontecendo nessa nação em que o número de evangélicos aumenta, mas sem gerar transformação da sociedade.

Sim, tenho vergonha de ser brasileiro. Tenho vergonha de estar debaixo da autoridade de políticos egoístas, corruptos, que assistem a tudo de modo impassível. Até quando vamos festejar, enquanto pessoas são assassinadas, e a impunidade impera? Até quando vamos nos orgulhar, enquanto famílias choram por ter perdido seus entes queridos? Onde está a nossa indignação coletiva?

Onde estão os jovens de caras pintadas que forçaram a saída do presidente Fernando Collor? Onde estão os pretensos ativistas de direitos humanos? Eles só lutam por causas ligadas à libertinagem e seus próprios “direitos”? Não lutam eles pela segurança, pela justiça e o bem-estar de todos os cidadãos do Brasil?! Os estão os cristãos protestantes? Sorrir e “profetizar vitória” em shows é muito fácil. Gostaria de ver uma multidão de cristãos chorando e clamando a Deus em praça pública, pedindo perdão pelos pecados dessa nação.

Ciro Sanches Zibordi

O Direito e a cosmovisão cristã

direito
por Valmir Nascimento Milomem Santos
Por que é tão importante ter uma cosmovisão cristã? Porque o cristianismo nos dá um mapa para a realidade, um esboço do mundo do jeito que ele realmente é: a ordem moral e física de Deus. E se nós queremos fazer o nosso caminho de forma eficaz através da vida, para viver de acordo com a realidade, temos que seguir o mapa, dizia Charles Colson. Além disso, a cosmovisão cristã nos ajuda a defender a nossa fé, dando-nos a linguagem para explicar por que a ética cristã é bom para a sociedade, ou a visão bíblica da natureza humana é essencial para uma boa política pública.
Muitos imaginam que compreender o cristianismo como uma visão de mundo é algo muito teórico e filosófico, e por isso deveria ser assunto somente para pastores e eruditos. Mas não é. Desenvolver uma cosmovisão bíblica deve ser uma preocupação de todo cristão, seja ele erudito ou não, pastor ou membro da igreja, pois se trata de um conjunto de suposições e crenças que utilizamos para interpretar e formar opiniões acerca da nossa humanidade, propósito de vida, deveres no mundo, responsabilidades para com a família, interpretação da verdade e questões sociais. É como um mapa mental que nos diz como navegar de modo eficaz no mundo.
Acrescento ainda que compreender o cristianismo como uma cosmovisão é importante porque conduz ao entendimento de que a fé não é algo somente privado, mas também público. Influenciados por uma forte tendência de secularização, muitos cristãos estão a aceitar a falsa ideia de que a fé é algo eminentemente privado e que por isso deve ser vivida e expressada somente no âmbito pessoal e religioso, sem a possibilidade de influenciar as questões públicas. Como vaticinou Dinesh D´Souza: “Muitos cristãos renunciaram a essa missão [participação efetiva no mundo], buscando um modus vivendi viável e confortável no qual concordam em deixar o mundo secular em paz se o mundo secular concordar em deixá-los em paz”.
O entendimento do cristianismo como uma visão de mundo desfaz esse equívoco, ao defender a inexistência de separação entre o sagrado e o secular, e que os princípios cristãos possuem densidade suficiente para abordar todas as áreas da vida humana. O cristianismo genuíno é a interpretação de toda a realidade, o que implica dizer que nenhuma área da vida humana escapa da soberania divina. O Apóstolo Paulo escreveu que em Cristo foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para Ele (Colossenses 1:16). Em outra oportunidade, o apóstolo dos gentios disse que a terra é do Senhor e toda a sua plenitude (I Co 1.26).
Portanto, nada está fora do alcance do poder do evangelho (Rm 1.16). O Direito, a Economia, a Ciência, a Educação, a Filosofia, o Estado e as Artes, por exemplo, precisam ser vistas pelas lentes da Bíblia. E para que isso aconteça precisamos pensar em termos bíblicos. Necessitamos da mente de Cristo (1Co 2.16).
No caso do Direito, especificamente, somente a cosmovisão cristã pode erigir um sistema de justiça, igualdade e dignidade da pessoa humana. Para tanto, basta observamos o primeiro elemento da tríade bíblica criação-queda-redenção, a qual contraria o pensamento dualista (secular-sagrado) e fornece os elementos necessários para a construção da perspectiva cristã.
A ideia da Criação aponta para o propósito da vida humana, por isso ela tem sentido e significado. O homem é fruto de um desígnio perfeito de um Deus amoroso (Jo 3.16) e sábio. Não somos acidentes e muito menos vivemos à deriva, sem rumo e sem direção.
Ao contrário da cosmovisão cristã, a cosmovisão naturalista pressupõe a inexistência de finalidade para a vida humana. A partir dessa concepção é possível perceber trágicas consequências daí advindas. Se a nossa existência não tem nenhum propósito, logo a vida não tem sentido. Se a vida não tem sentido, resta somente um mundo vazio e desprovido de significado, onde impera o caos, a desesperança e a falta de uma base moral objetiva.
Por essa razão Ravi Zacharias escreve: “Quando alguém tenta viver sem Deus, as respostas à moralidade, à esperança e ao sentido da vida o enviam ao seu próprio mundo para moldar para si uma resposta individualizada. Viver sem Deus significa elevar-se com a ajuda de seus próprios instrumentos metafísicos, seja qual for os meios escolhidos…. Pode então o homem viver sem Deus? Claro que pode, no sentido físico. Pode viver sem Deus de maneira racional? A resposta é: Não!; porque tal pessoa é compelida a negar a lei moral, a abandonar a esperança, a privar-se do significado e a arriscar-se a não se recuperar, se estiver errada. A vida já oferece muita evidência do contrário. Fora do Cristo não há lei, não há esperança e não há sentido. Você, e só você, é aquele que vai determinar e definir estes elementos essenciais da vida; e você e só você, é o arquiteto da sua própria lei moral; você e só você, idealiza sentido para a sua vida; você, e só você, arrisca tudo o que tem baseado numa esperança que você imagina” .
A segunda implicação da doutrina cristã da Criação é a dignidade da pessoa humana. A passagem bíblica de Gn 1.26-27 é paradigmática e estabelece o princípio segundo o qual todas as pessoas devem ser tratadas com dignidade, uma vez que temos a imagem de Deus, as suas “impressões digitais”. A dignidade da pessoa humana não é somente uma ideia cristã, como também um atributo universal próprio do ser humano, de procedência transcendente, que gera uma pretensão universal de reconhecimento, respeito e proteção tendo como destinatários todos os indivíduos e todas as formas de poder político e social.
O jurista português Jónatas Machado lembra que para a visão do mundo judaico-cristã, essa dignidade especial de ser criado à imagem e semelhança de Deus manifesta-se nas peculiares capacidades racionais, morais e emocionais do ser humano, na sua postura física erecta, sua criatividade e na sua capacidade de articulação de pensamento e discurso simbólico, distinta de todos os animais, por mais notáveis que sejam as suas características.
Jónatas destaca ainda que a teologia da imagem de Deus (imago Dei) constitui a base das afirmações de grandes pensadores da história, a exemplo de Francisco de Vitória, Francisco Suareza, Hugo Grócio, Samuel Pufendorf, John Milton, John Lock James Madison e Thomas Jeferson, sobre a dignidade, a liberdade e a igualdade, as quais viriam a frutificar no mundo jurídico, especialmente o direito a liberdade individual e a capacidade de autodeterminação democrática do povo .
Ao contrário da cosmovisão cristã, as demais cosmovisões não possuem uma base firme o suficiente na qual a defesa da dignidade humana possa se apoiar. Qual é a justificativa pela qual as pessoas devem ser tratadas com respeito e justiça se elas são meros acidentes biológicos?
Lembro-me do livro “The Natural History of Rap”, em que os dois professores universitários defendem a ideia de que o estupro não é uma patologia biologicamente falando, mas sim uma adaptação evolucionária, uma estratégia para maximizar o sucesso reprodutivo. Para os autores, o estupro é biológico, “um fenômeno natural produto da herança evolucionária humana”, como “manchas de leopardo e de pescoço alongado da girafa”. Em outras palavras, alguns homens podem recorrer à coerção para cumprir o imperativo reprodutivo.
Esse exemplo mostra que a adoção da cosmovisão naturalista tem sérias implicações contra a dignidade da pessoa humana, pois ao retirar Deus do cenário, o darwinismo retira também os princípios que deveriam nortear a vida em sociedade, sobrando tão somente o acaso, impulsos biológicos e materialismo, de modo a tornar legítimo até mesmo o estupro, como um fenômeno natural produto da herança evolucionária humana.
Outro princípio subjacente da Criação é a igualdade. Se todos provém do mesmo Criador, não há razão e muito menos justificativa para um ser humano seja considerado superior ou inferior ao outro, por isso a premissa judaico-cristã que todos merecem ser tratados sem distinção, independentemente da cor, raça, sexo, etnia ou religião.
O fundamento do tratamento igualitário é o próprio Deus que não faz acepção de pessoas (At 10.34). Nesse sentido, o apóstolo Paulo escreve: Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gl 3.28).
Dinesh D´Souza lembra que “o caráter precioso e a igualdade de valor de cada vida humana é um conceito cristão”. Os cristãos sempre acreditaram que Deus atribui a cada vida humana que cria um valor infinito e que ama a cada pessoa de igual modo. No Cristianismo, você não é salvo por meio de sua família, tribo ou cidade. A salvação é uma questão individual. Além disso, Deus tem uma “vocação” ou chamado para cada um de nós, um plano divino para cada um de nós, conclui D´Souza .
Referências:
1. Disponível em: http://www.religiontoday.com/columnists/breakpoint/colson-s-passion-and-legacy.html.
2. D´SOUZA, Dinesh. A verdade sobre o cristianismo: por que a religião criada por Jesus é moderna fascinante e inquestionável; [tradução Valéria Lamin Delgado Fernandes]. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008, p.14.
3. ZACHARIAS, Ravi. Poder o homem viver sem Deus? – São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p. 95-96.
4. MACHADO, Jónatas E.M. Estado Constitucional e Neutralidade Religiosa: entre o teísmo e o (neo) ateísmo. – Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2013, p. 37.
5. MACHADO, Jónatas E.M, p. 38.
6. D´SOUZA, Dinesh, p.90.

CARTA A UM PASTOR PENTECOSTAL QUE VIROU REFORMADO

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Por Augustus Nicodemus Lopes
*Embora a situação e o destinatário dessa carta sejam fictícios, ela se baseia em fatos reais.
Meu caro Fernando,
Fiquei muito feliz em saber que você vem se fortalecendo mais e mais nas doutrinas da Reforma. Lembro-me bem das suas interrogações e de seus conflitos quando você começou a ler Martin Lloyd-Jones, Spurgeon e outros autores reformados e se deparou com a visão reformada de mundo e com as doutrinas da soberania de Deus, da graça absoluta e da nossa profunda depravação. Quantas perguntas e quantas interrogações! Pelo que entendi da sua carta, esse período inicial de conflito interior e de “arrumação” da mente já passou e agora você enfrenta uma outra fase, que é o antagonismo de colegas pastores da sua denominação e de membros da sua igreja para com o novo conteúdo das suas pregações e do seu ensino.
Você me perguntou se temos espaço em nossa igreja para pastores como você, que é pentecostal e que recentemente encontrou as doutrinas reformadas. Estou vendo essa possibilidade com alguns outros colegas pastores, mas eu pessoalmente não creio que a solução seria você sair de sua igreja e passar para uma reformada. Creio que você deveria tentar ficar onde está o máximo de tempo que puder. Os reformadores, como Lutero, a princípio não pretendiam sair da Igreja Católica, mas ficar e reformá-la de dentro para fora. Somente após algum tempo é que ficou claro que isso era impossível. No caso de Lutero, o papa se encarregou de expulsá-lo com a excomunhão. Seu caso é diferente, pois é um absurdo comparar a situação de um reformado dentro da Igreja Católica com a situação de um reformado dentro de uma igreja pentecostal. Portanto, minha sugestão é que você permaneça o máximo que puder, só saia se for obrigado a isso. Deixe-me dar alguns conselhos nessa direção.
1. Mantenha sempre em mente que apesar das diferenças que existem em doutrinas e práticas (nem sempre discutidas de maneira cristã), os reformados no Brasil sempre reconheceram os pentecostais históricos como genuínos irmãos em Cristo. Nós chegamos ao Brasil primeiro. Vocês vieram depois. É verdade que a princípio houve relutância em reconhecê-los como evangélicos por causa da estranheza com as práticas e doutrinas pentecostais, mas apesar delas, eventualmente vieram a ser reconhecidos como irmãos dentro da fraternidade evangélica.
2. Existem muitos pontos de convergência entre os reformados e os pentecostais. Além dos pontos fundamentais contidos, por exemplo, no Credo Apostólico, compartilhamos com eles ainda o apreço pelas Escrituras, o reconhecimento da necessidade de uma vida santa, a busca da glória de Deus, o desejo de um legítimo avivamento espiritual e o zelo pela doutrina. Nesses pontos e em outros, pentecostais e reformados sempre se alinharam contra liberais e libertinos. Tente se concentrar nesses pontos comuns nas suas pregações e no seu ensino.
3. Enquanto permanecer em sua igreja, responda sempre com mansidão e humildade aos que questionarem as “novas doutrinas” que você agora professa. Diga que as doutrinas ensinadas pelos reformados são muito mais antigas que a própria Reforma e que remontam ao ensino de Jesus e dos apóstolos. Elas têm sido adotadas e ensinadas por pastores e pregadores de todos os continentes e de muitas denominações diferentes. Elas serviram de base para o surgimento da democracia, da visão social, das universidades e da ciência moderna, e vêm abençoando a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Naturalmente, o que vai realmente fazer a diferença em sua resposta é sua habilidade de mostrar biblicamente que você não está abraçando nenhuma heresia ou doutrina nova. Para isso, é necessário que você estude as Escrituras e que se familiarize com sua mensagem, especialmente com as passagens e porções que tratam mais diretamente das doutrinas características da Reforma.
4. Evite dar a falsa impressão de que ser reformado é cantar somente salmos sem instrumentos musicais, não ter corais nem grupos de louvor, proibir as mulheres de orar em público e não levantar as mãos ou bater palmas no culto. Concentre-se nos pontos essenciais, como a soberania de Deus, a sua graça absoluta na salvação de pecadores, a depravação total e a inabilidade do homem voltar-se para Deus por si mesmo, a necessidade de conversão e arrependimento e a centralidade das Escrituras na experiência cristã.
5. Quando chegar ao tema do livre arbítrio, escolha com cuidado as suas palavras. Você sabe que a posição reformada clássica é de que a soberania de Deus e a responsabilidade humana são duas verdades igualmente ensinadas na Bíblia, muito embora não saibamos como elas se reconciliam logicamente. Deixe claro que você em momento algum está anulando a responsabilidade do homem para com as decisões que ele toma, e que, quando ele toma essas decisões, ele as toma porque quer tomá-las. Ele é, portanto, responsável pelo que faz e pelo que escolhe, mesmo que, ao final, o plano de Deus sempre prevalecerá e será realizado. Não tente resolver o mistério dessa equação. Seja humilde o suficiente para dizer que você reconhece o aparente paradoxo dessa posição e que não consegue eliminar nenhum dos seus dois pontos. Mantê-los juntos em permanente tensão é o caminho da Reforma, e um caminho que muitos pentecostais vão entender e apreciar. O que eles receiam é que se acabe por eliminar a responsabilidade do homem e reduzi-lo a um mero autômato. Deixe claro que não é isso que os reformados defendem.
6. Creio que será muito útil você estar familiarizado com as experiências espirituais vividas por John Flavel, Lloyd-Jones, Jonathan Edwards, David Brainerd, George Whitefield e muitos outros reformados. Os reformados e particularmente os puritanos deram grande ênfase à religião experimental, isto é, ao fato de que os cristãos deveriam ter profundas experiências com Deus. Nossos irmãos pentecostais apreciam essa ênfase, pois o surgimento do pentecostalismo, entre outros fatores, foi uma reação contra a frieza e a formalidade de muitas igrejas históricas do início do século XX nos Estados Unidos e Europa.
7. Tente ainda mostrar que as doutrinas da graça, aquelas da Reforma, são as que mais tendem a glorificar a Deus, visto que exaltam a sua soberania e humilham o homem, colocando-o no devido lugar. Todo cristão genuíno tem anseios de dar a glória a Deus e de vê-lo exaltado. Nossos irmãos pentecostais buscam a glória de Deus, e quando entendem que as doutrinas da graça tendem a exaltá-lo mais que outras, passam a ter uma atitude de reflexão e abertura para com elas.
8. Um outro conselho. Pregue a Palavra, exponha as Escrituras com fidelidade. Ao fazer isso, você estará pregando as grandes doutrinas da graça em vez de pregar sobre a Reforma. Evite citar autores reformados o tempo todo. Muitos pregadores reformados estragaram seu ministério porque dão a impressão que conhecem Lutero, Calvino, Spurgeon e os puritanos mais do que o apóstolo Paulo, pela quantidade de vezes que ficam citando autores reformados em seus sermões. Evite clichés evangélicos e reformados. Pregue a Palavra e deixe que seus ouvintes concluam que as doutrinas reformadas são, na realidade, bíblicas.
9. Não estou dizendo que você deve “esconder o jogo” para evitar ser colocado para fora de sua igreja. Faz parte da integridade e da honestidade cristãs assumirmos o que pensamos. Assuma sua posição, mas de forma inteligente e sábia, de forma que muitos entendam a mudança que ocorreu em você. Por outro lado, evite a síndrome de mártir. Eu pessoalmente detesto essa atitude que por vezes alguns reformados adotam quando estão em minoria e estão sofrendo resistência. Se ao final não tiver jeito e você tiver mesmo de sair da sua igreja, saia com dignidade, não saia atirando nem acusando as pessoas.
10. Não veja as perseguições que você tem sofrido dentro de sua igreja como algo pessoal, mas como a reação de irmãos sinceros do outro lado de um conflito que já dura séculos dentro da igreja cristã, que é aquele entre semipelagianos-erasmianos-arminianos, de um lado, e agostinianos-calvinistas-puritanos, de outro. Lembre que em ambos os lados há crentes verdadeiros e sinceros.
Por fim, existem já no Brasil várias igrejas pentecostais-reformadas, pequenas, é verdade, ainda nascentes. Mas, mesmo não sendo pentecostal, profetizo que esse movimento pode crescer muito no Brasil. Muitas igrejas históricas já são pós-reformadas e é muito triste ver o esquecimento das suas heranças e como vai ficando cada vez mais difícil um retorno verdadeiro. Quem sabe os pentecostais não estejam predestinados a avançar bastante a teologia da Reforma no Brasil?
Fique em paz. Um abraço do seu irmão e amigo,
Augustus

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Fonte: O Tempora! O Mores! Divulgação: Púlpito Cristão.

sábado, 1 de junho de 2013


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Por Norma Braga


Você certamente já ouviu aquele amigo que se diz social-democrata citar o exemplo da Suécia como de um socialismo bem-sucedido. Bom, faça-lhe dois favores: dê a ele de presente o livro do Janer Cristaldo (já desatualizado, pois é de 1973: procure em sebos) O paraíso sexual democrata, e mostre-lhe o artigo de Gary North (teólogo e economista presbiteriano) do dia de hoje, O estado assistencialista sueco está em chamas. Isso vai funcionar como um panorama bastante amplo da situação daquele país, que de paraíso não tem nada. As “chamas” do título são literais: faz seis dias que a Suécia vem sofrendo na mão de incendiários.

Dois fatores contribuíram para essa situação de guerra civil: uma grave crise econômica desde os anos 1990 (obrigatória em países com governos que se encarregam pesadamente da “justiça social”) e a imigração em massa de gente do Iraque, do Afeganistão, da ex-Iugoslávia, da Somália, da Síria, para o que é considerado um país preferencial em toda a Europa. Alocados em guetos no subúrbio, sem perspectivas e sem desejo de integração (o governo fornece até cursos gratuitos de sueco), esses imigrantes fomentam um enorme ressentimento contra o Estado Papai – ressentimento que um dia explode. Perfazem 15% da população e são os mais atingidos pelo desemprego. (Mais sobre isso, em francês, aqui e aqui.) Gary North sentencia: "Um arranjo que combina imigração livre com Estado provedor está propenso ao desastre."

Deveria ser o contrário? Não! O Estado é um mau criador de empregos e oportunidades. Ele é como um pai que mima os filhos ao ponto de assumir todas as rédeas da vida deles. Não sabe dar o “empurrãozinho” de que precisam desde crianças para crescerem por si. Depois, o pai se lamenta quando precisa sustentar adultos dependentes pelo resto da vida. A metáfora dá conta somente das boas intenções, que podem até existir (muitas vezes duvido), mas nunca vêm sozinhas: governos socialistas assumem tarefas demais, via de regra, para embriagar os governantes de poder e dinheiro público. Desestimulando ou até inibindo a iniciativa privada com assistencialismo, leis abusivas e impostos altos, o Estado socialista diminui drasticamente o número de empregadores e, logicamente, o de empregos. Resultado: a desigualdade social aumentou muito na Suécia desde 1995. E toda a culpa recai agora sobre o costumeiro bode expiatório das esquerdas, claro, na figura do primeiro-ministro Frederik Reinfeldt, eleito em 2006 e decidido a fazer alguns cortes no benefício da galera. Uma reportagem desinformativa, certamente desejando salvaguardar a (ainda) boa fama da social-democracia sueca no Brasil, afirma que os próprios incendiários são de “extrema-direita” (direita contra direita?) e completa: “Os subúrbios afetados pela onda de violência têm em comum uma alta concentração de imigrante e problemas sociais, que se viram agravados pela política de cortes implementada há sete anos pelo governo de direita liderado pelo primeiro-ministro conservador Fredrik Reinfeldt.” Pois é. Se a mamata diminuiu e o povo resolveu tacar fogo nas ruas, a culpa é de quem reduziu a mamata, não é? Lógica perversa!

Trazida por North, achei tocante a fala de Marc Abramsson, líder do Partido Nacional Democrata:

Nós somos o país que mais se esforçou para integrar essas pessoas, muito mais do que qualquer outro país europeu; gastamos bilhões em um sistema de bem-estar que foi criado para ajudar imigrantes desempregados e garantir a eles uma boa qualidade de vida. Ainda assim, temos áreas em que existem grupos étnicos que simplesmente não se identificam com a sociedade sueca.  Eles veem a polícia e até mesmo as brigadas de incêndio como parte do aparato repressor, e os atacam.  Já tentamos de tudo, de tudo mesmo, para melhorar as coisas, mas nada funcionou.  Não se trata de racismo; a questão é simplesmente que o multiculturalismo não reconhece como os humanos realmente funcionam.

Ele chegou ao ponto: como os humanos realmente funcionam? Eis a resposta bíblica: eles são pecadores, naturalmente inclinados ao mal. Um sistema de governo que não considere essa verdade revelada (e provada no dia-a-dia), buscando continuamente fazer surgir a bondade interior do povo por meio de privilégios de todo tipo, como se a gratidão pudesse ser acionada automaticamente, está fadado ao esgotamento. Não existe a associação – tão cantada entre os poetas românticos do século XIX – entre pobreza e bondade. Dentre os imigrantes pobres que recebem assistência especial do governo sueco, alguns serão gratos e procurarão andar com as próprias pernas depois de algum tempo; mas outros, muitos outros, serão cruéis, nunca dispostos a ganhar o pão com o suor do rosto, mas, humilhados, sempre prontos a morder a mão que os ajuda. São esses que contribuindo para a destruição do país, de dois jeitos: inércia e, agora, fogo. Inutilizam a própria vida e a dos outros. O sistema não funciona, e mais: produz espertalhões, como aquela mulher que queria o Bolsa Família para dar à filha uma calça de trezentos reais.

Volto à frase do apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 3.10: “Quem não quer trabalhar, que também não coma.” A aplicação da Bíblia ultrapassa nosso egoísmo comezinho: o amor de Deus não se deixa confundir com sentimentalismos destrutivos. O princípio enunciado por Paulo não se esgota no indivíduo que queria viver às custas da igreja congregada dos primeiros séculos da era cristã, mas tem profundidade e amplitude na sociologia, na psicologia, na política. Quem deseja se empenhar na formação da cosmovisão cristã falhará estrondosamente se continuar lendo a Palavra e mirando somente seu próprio umbigo – ou o umbigo dos pobres idealizados pela cultura socialista.

Foto: Carro incendiado no subúrbio de Estocolmo, Suécia, dia 21 de maio de 2013 (JONATHAN NACKSTRAND / AFP). Tirada desse site.

Leia também: O patético resultado do assistencialismo
.