Isvonaldo sou Protestante

Isvonaldo sou Protestante

sábado, 9 de maio de 2015

.

Por Josaías Jr.


Sei que esse assunto já foi batido e rebatido várias vezes, por isso é possível que esse texto não apresente nenhuma novidade para alguns irmãos. Entretanto, gostaria de compilar aqui algumas das melhores razões para não usarmos a expressão levita para designar as pessoas que tocam e cantam no “período de louvor”. E mesmo que você não use o termo, proponho que leia pelo prazer de ver a história da salvação se desenrolando na figura do sacerdote.

Com isso, desejo não apenas levar irmãos a repensarem esse costume, mas também mostrar que a teologia por trás do sacerdócio levítico é muito mais bela, ampla e grandiosa do que parece. Quero deixar claro (antes que alguém objete) que uma igreja pode usar essa expressão e ainda realizar cultos de adoração verdadeira, e que ninguém será condenado pelo uso do termo. Entretanto, não há nenhuma boa razão para cometer esse erro deliberadamente. E, creio, qualquer desvio do ensino bíblico, mesmo os que parecem mais simples, podem ser portas para distorções perigosas. Por isso, sugiro que líderes e pastores levem em consideração o que está exposto aqui.

1) Nem todos os levitas eram músicos

A Bíblia relata, é verdade, que existiam levitas envolvidos com a música no antigo Israel. Vemos corais e bandas formados por membros da tribo de Levi e voltados exclusivamente para esse ministério. Entretanto, também lemos sobre levitas que cuidavam de outras atividades cultuais, como o sacrifício, e aqueles que se  envolviam  em tarefas  administrativas e operacionais.

Sei que alguns defensores da expressão “levita” sabem disso. (Por exemplo, o polêmico concurso “Promessas” admite isso em seu site oficial). Ainda assim, preferiu-se ignorar todas as outras funções associadas ao ministério levítico e concentrar-se apenas nessa. Por quê?

Alguns entendem que é por estrelismo dos músicos, mas prefiro pensar que há um motivo mais profundo – a valorização medieval de funções “sagradas” em detrimento de funções “seculares”. Varrer o chão, organizar culto, carregar coisas – qualquer um faz. Adorar, somente os crentes. Há um fundo de verdade aí, mas também há uma ignorância quanto ao chamado geral de Deus para humanidade. Tanto o administrador quanto o zelador podem glorificar a Deus em suas respectivas funções. Isso não é um culto público, mas é um culto.

Assim, alguém responsável por assuntos cotidianos como arrumar cortinas do templo poderia “ser tão adorador” quanto Asafe, o compositor. E um músico no culto público pode estar profanando o nome de Deus – se seu alvo não for a glória do Criador.

2) O chamado levítico originalmente envolvia toda a humanidade

Um dos assuntos mais interessantes da Bíblia é a teologia do local de adoração. Quando Adão e Eva foram criados, eles receberam um chamado de glorificar a Deus por meio do casamento e da procriação, do domínio sobre a natureza e do descanso no sétimo dia. E eles foram colocados em um Jardim, onde poderiam adorar o Criador e exercer a função de guardar e cuidar do Éden.

Algo que passa despercebido pela maioria dos cristãos é que Moisés e outros autores bíblicos repetiram certas expressões e símbolos sobre o  Jardim do Éden quando falavam sobre o tabernáculo e o templo. Ou seja, o Éden era um “templo” que deveria ser guardado pelos primeiros levitas  – Adão e Eva. O termo “lavrar e guardar”  (Gn 2.15) é o mesmo usado para as funções dos levitas em Números 3.7-8, 8.26  e  18.5-6. O chamado de adoração e cuidado com o “templo” é um chamado geral, dado a nossos primeiros pais, assim como o casamento, a família, o trabalho e o descanso.

“Se o Éden é visto como um santuário ideal, então talvez Adão deva ser descrito como um Levita arquetípico”  (Gordon J. Wenham)¹

3) O levita tinha um papel de mediador, assumido por Cristo

Como ungidos do Senhor, os levitas tinham um papel de mediar a Aliança entre Yahweh e o povo de Israel. Eles não eram simplesmente pessoas que “ministravam a adoração” para a congregação. Muitos veem o povo realizando sacrifícios e entendem que aquilo era o paralelo de nossos momentos de louvor hoje. Há certa relação, mas os sacerdotes faziam muito mais.

Como mediadores, eles exerciam o papel de representar Deus para o povo e representar o povo para Deus. É por isso que esse era um cargo de extrema importância e perigo. Se o levita chegasse contaminado na presença de Deus, ele estava dizendo que a nação estava em pecado. Se ele chegasse maculado na presença de Israel, era uma blasfêmia – “Deus” estava corrompido. Eles não estavam simplesmente realizando cultos, eles tornavam o culto possível.

Hoje, esse papel é cumprido perfeitamente por nosso sacerdote e cordeiro Jesus. Como perfeito Deus e perfeito homem, ele pode posicionar-se como representante de Yahwehdiante do povo e representante da igreja diante de Deus. Como afirma o Apóstolo, “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Tm 2.5). Assim, o ministro de louvor hoje é meramente alguém dependente do verdadeiro mediador, aquele que torna o culto possível, o Senhor Jesus.

4) Jesus não é representante do sacerdócio levítico

Entretanto, apesar de sacerdote, Jesus não pode ser considerado um levita. Um motivo para isso é biológico – ele não é descendente de Levi, mas de Judá. Como ele poderia assumir a função sacerdotal? O segundo motivo é teológico. O autor de Hebreus ensina que Jesus é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Hb  5.10).

O Salmo 110 (não sem motivo o texto do Antigo Testamento mais citado no Novo) nos fala de um rei-sacerdote que se assenta no trono de Davi. De fato, o próprio Davi cumpriu certas funções sacerdotais sem ser realmente um levita. Como isso seria possível? Isso acontece porque esse sacerdote é da mesma ordem de um misterioso personagem de Gênesis 14, um rei de Salém (note as sílabas finais de uma tal Jerusalém) chamado Melquisedeque.

Esse personagem, por estar envolto em tanto mistério, é considerado uma figura de Cristo. Ele era “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus”  (Hb 7.3) e tanto rei de justiça, quanto de paz (7.2). Assim, valorizar demais o sacerdócio levítico pode nos levar a renegar uma ordem superior, a de Melquisedeque, por quem vem a perfeição (Hb 7.11).

5) A Nova Aliança, da qual fazemos parte, tornou o sacerdócio levítico caduco

O autor de Hebreus vai mais além e diz que o sacerdócio da ordem de Arão foi revogado. Diante da superioridade de um sacerdote que é eterno (Hb 7.24), mediador de uma Aliança  superior (Hb 8.6), ele conclui que o sistema anterior era fraco e não podia aperfeiçoar (7.18,19).

Usando o relato sobre Abraão e Melquisedeque, o autor de Hebreus mostra que, quando o Patriarca entregou seus dízimos ao Rei de Salém, estava ali comprovado que o sacerdócio levítico era inferior ao sacerdócio de Jesus. Como assim? Ele explica que a tribo de Levi era responsável pelo recolhimento do dízimo no antigo Israel. Mas o que vemos em Gênesis? Um antepassado dos levitas entregando as ofertas e sendo abençoado por outro sacerdote! Levi, ainda nos lombos de Abraão (7.10), colocou-se debaixo da autoridade de Melquisedeque. Como sabemos, somente o maior abençoa o menor (7.7).

Assim, depois dessa interpretação pouco usual (mas inspirada), o autor de Hebreus conclui – a Nova Aliança envelheceu a primeira, que está velha e prestes a acabar (8.13). Assim, fazer referência a essa instituição em cultos neotestamentários é exaltar as sombras que passaram, que não aperfeiçoam (10.1) e são fundadas no que é terrestre e passageiro (8.2).

6) Em Cristo, todos somos sacerdotes

Unidos a Cristo, somos tratados como portadores de sua perfeita vida de obediência e, assim, podemos ser considerados sacerdotes. Um dos chamados de Israel era ser um reino de sacerdotes (Êx 19.6) – justamente a posição que Adão falhou em cumprir. O apóstolo Pedro aplica essa expressão à igreja e afirma que somos sacerdócio real (1 Pe 2.9).

Da mesma forma que a humanidade foi chamada, no primeiro Adão, para guardar o Éden, a nova humanidade, no último Adão, é chamada a ministrar na Nova Criação. Todos os crentes são chamados a adorar e oferecer sacrifícios (Rm 12.1), não apenas uma classe especial  de pessoas. É isso que chamamos de sacerdócio universal dos crentes.

7) Cria uma divisão entre crentes “levitas” e “não-levitas”

A última razão é mais prática que teológica. Em muitas igrejas, essa separação entre “ministros de louvor” e a congregação gera uma perigosa classificação de  espiritualidade.  É claro que pessoas que se colocam à frente da congregação (e, de certa forma, ensinam e lideram o rebanho) devem tomar um cuidado especial em relação a suas atitudes e serão responsabilizados mais rigorosamente.

Entretanto, isso não coloca necessariamente os cantores e  músicos em algum tipo de posição diferente, como alguém  mais consagrado, um foco maior de ataques do inimigo, imune à críticas, etc. Tanto  pastores, quanto músicos e “leigos” são aceitos por Deus por meio da fé em Cristo, porque ele viveu e morreu de forma perfeita por nós. Diante de Deus, todos têm 100% de aprovação.

Ao mesmo tempo em que músicos e cantores devem estar atentos para que não caiam, eles precisam se  lembrar de que a cruz nivela tudo – somos todos merecedores da ira eterna, somos todos considerados perfeitos por Deus. Em Cristo, não em Levi, todos somos templo,sacrifício e sacerdotes. Se Deus nos uniu assim, quem somos nós para separar?

________
Nota:
1 Para uma tabela que mostra a ligação ente o Éden e o Templo/Tabernáculo, ver God’s Glory in Salvation through Judgment: a Biblical Theology, de James M. Hamilton. Boas informações também em From  Eden to  the New Jerusalem, de T. Desmond  Alexander.

***
Fonte: Reforma21

domingo, 3 de maio de 2015



Por Leonardo Dâmaso


2. A aplicação do dom de variedade de línguas e sua relação com os não crentes (14.12-25)

Tendo tratado acerca do dom de línguas relacionado aos crentes, Paulo, agora, discorre sobre o dom de línguas relacionado aos não crentes. O apóstolo enfatiza a importância da mente para o entendimento do que ocorre no culto público. Ele ensina que os atos “no Espírito” envolvem o uso do intelecto (vs.12-17), e instrui os coríntios no uso das línguas em face dos visitantes no culto (vs.20-25). 
   
a) A aplicação das línguas (vs.12-25)

Paulo aplica o princípio do entendimento das línguas ao crente que as fala, aos demais crentes da congregação e, por fim, aos não crentes. Vejamos: 
       
i. O princípio do entendimento das línguas aplicado ao próprio crente que as fala (vs.12-14)  

A parte a do versículo 12 é a conclusão do versículo anterior. Tendo utilizado a ilustração de dois estrangeiros que conversam entre si, porém ambos desconhecem o idioma um do outro, Paulo conclui o versículo, dizendo: Assim também vós. Era como se o apóstolo dissesse: “Isso também acontece entre vocês quando há línguas não traduzidas no culto”.

Todavia, Paulo reconhece que os coríntios desejavam ter os dons espirituais; e ele não os repreende por isso (12.31; 14.1,39). Antes, Paulo os corrige com relação ao modo pelo qual pensavam em obter os dons; os coríntios desejavam os dons como se fosse uma expressão de espiritualidade superior. Assim, Paulo emprega a edificação da igreja como o alvo da busca pelos dons espirituais. Era com este pensamento que os crentes deveriam exceder nos dons espirituais que fossem mais adequados para isso.  
        
No versículo 13, ele instrui os crentes em como as línguas deveriam ser exercidas no culto para que houvesse a edificação da igreja. Ele escreve que se alguém possui o dom de línguas, esta pessoa deve orar para que a possa interpretar. Como entender esta expressão? Aquele que falava em línguas no culto não entendia o que estava dizendo. Se ele entendia, por que orar pela interpretação? O objetivo de quem falava em línguas não era em si a auto edificação, mas buscar com que os outros fossem edificados. Para isso, o falante deveria orar para que pudesse traduzir as línguas.

À primeira vista, parece que Paulo está ensinando que a mesma pessoa que fala em línguas também pode interpretá-las. Porém, esta interpretação contradiz a regra estabelecida por Paulo com relação ao entendimento das línguas no culto, ou seja, que uma pessoa falasse em línguas e outra pessoa as traduzisse. Variedade de línguas e interpretação de línguas são dons distintos conferidos a pessoas distintas nas duas listas de dons que Paulo descreveu nesta carta (12.10,30).

Quando o apóstolo trata do uso das línguas no culto, ele demonstra que uma pessoa falava em línguas e outra as interpretava (vs.26-27). O sinal para que o falante em línguas deveria se calar era a ausência do tradutor (vs.28). Portanto, a melhor interpretação, seria entender que Paulo estava orientando aquele que falava em línguas a orar para que Deus concedesse o dom de interpretação de línguas a outro; assim, como resposta de oração, o que falava em línguas teria a sua mensagem traduzida. 

Para confirmar a sua instrução, Paulo enumera alguns motivos utilizando como exemplo a oração e o ato de louvar a Deus em línguas (vs.14-15). Vejamos:

1) Paulo escreve hipoteticamente como se estivesse participando de um culto público. A sentença inicial do versículo 14 implica uma “condição” – Porque se eu orar.

Paulo não diz que ora em um idioma estrangeiro no culto; pelo contrário, ele apenas afirma o que aconteceria se orasse em uma língua desconhecida dos irmãos da igreja em Corinto: o seu espírito estaria orando e recebendo a atuação direta do Espírito Santo, o que é algo bom, porém não seria a forma adequada de exercer o dom, uma vez que a mente estaria ausente para a compreensão intelectual do conteúdo da mensagem em línguas. 

Assim, não somente o falante em línguas não entenderia a sua oração, mas também os demais irmãos na igreja. Por isso Paulo escreve [utilizando ele mesmo como exemplo] que a mente daquele que falava em línguas sem interpretação no culto ficaria infrutífera, e que ele, se estivesse participando de um culto, preferia instruir os irmãos na própria língua do que o fazer em outra língua que fosse desconhecida (vs.19).

Adiante, Paulo declara que deve haver um equilíbrio no exercício do dom de línguas no culto público. A maneira adequada, diz o apóstolo, seria orar com o espírito e utilizar a mente para a compreensão (vs.15). Note que Paulo deixa claro que orar em línguas sem o uso da mente é fazer mau uso do dom e, portanto, um erro que deve ser evitado (vs.16-17). “Espírito” [humano] e mentes estão conectados, e ambos devem ser usados no exercício do dom de línguas para que haja a edificação da igreja. Paulo quer dizer que ele [e o que possuí o dom de falar em línguas estrangeiras] deve orar numa língua conhecida por todos no culto para que haja o entendimento mental. 

Simon Kistemaker esclarece:

Como o espírito e a mente funcionam? A mente humana, que tem a capacidade de pensar e entender, está intimamente ligada ao espírito humano. Quando o Espírito Santo controla tanto o espírito como a mente, uma pessoa geralmente viceja e prospera. Mas quando o espírito humano não é governado pelo Espírito Santo, a mente permanece espiritualmente ociosa e o resultado é a esterilidade. [...] É possível o espírito e a mente funcionarem separadamente, mas Paulo dá a entender que o espírito e a mente de uma pessoa precisam estar envolvidos igualmente para serem produtivos.

O espírito e a mente devem operar juntos no exercício da oração para pronunciar palavras inteligíveis. Precisam edificar os membros da igreja que ouvem essas palavras. Portanto, Paulo insiste que os coríntios orem num idioma que seja conhecido por todos os que estão presentes no culto. Ele diz aos coríntios que tanto o espírito como a mente devem orar com eficácia para o benefício da igreja.12

Calvino escreve:

Se alguém era dotado com o dom de línguas e falava de forma simples e inteligível, então seria estranho que Paulo falasse de “o espírito ora, porém o entendimento fica infrutífero”, pois o entendimento deve agir em sintonia com o espírito. [...] Portanto, se formulo orações numa língua que não é conhecida, e o espírito [humano] me supre com palavras, é evidente que o próprio espírito que regula minha língua, nesse caso orará, minha mente, porém, ou estará vagando sem rumo ou, ao menos, não tomará parte alguma na oração.13   

Por outro lado, o mesmo acontece com o louvor entoado a Deus em línguas (vs.15). Paulo ressalta que ele [e outro que possua o dom de falar em línguas estrangeiras] pode cantar em “espírito”, porém utilizando a mente como o meio de entendimento do conteúdo do louvor. Todavia, reconhecendo a prática equivocada do cantar em línguas sem tradução, a qual é vigente em algumas em ramificações pentecostais e neopentecostais, Carson observa corretamente que “não existe evidência de que isso justifique uma total participação da congregação. Para começar, isso violaria o princípio de Paulo de que nem todos têm o mesmo dom; e, além disso, uma vez que isso também é uma forma de falar em línguas, a interpretação deve ser exigida”.14  

O segundo motivo que Paulo salienta para corroborar suas orientações acerca do uso adequado das línguas no culto, utilizando como exemplo a oração e o ato de louvar a Deus em línguas, encontra-se no próximo sub tópico:     
                      
ii. O princípio do entendimento das línguas aplicado aos demais crentes da congregação (vs.16-20)

2) No versículo 16, Paulo afirma que, se alguém realizar uma oração a Deus em outro idioma no culto público, o indouto não poderá dizer amém, pois não compreende o que foi dito. Como Paulo tinha mente um culto imaginário ao escrever o capítulo 14, temos, aqui, um diálogo hipotético ou imaginário. O apóstolo supõe um diálogo com um crente “espiritual” que tinha o hábito de orar em línguas durante o culto sem preocupar-se com o indouto ao seu lado. Sendo assim, quem seria este indouto?15 Existem duas possibilidades acerca da identidade desta pessoa.

A primeira possibilidade é que o indouto seria um descrente que visita um culto público da igreja. Este indouto é identificado como alguém que não é instruído na Palavra de Deus. Esta palavra forma um par com a palavra incrédulo no versículo 23, referindo-se a alguém que visita a igreja. Se o indouto for mesmo um “descrente” que participa de um culto público, seria estranho ele dizer amém após presenciar os demais crentes “adorando a Deus” através de orações de gratidão e louvores. A segunda possibilidade é que o indouto é alguém que não possui o dom de interpretação de línguas ou que desconhece o idioma que está sendo falado. Em outras palavras, era um leigo, uma pessoa simples (NTLH), mas um crente.   

A palavra indouto ιοιωτον (idiotes), no grego, significa “desinformado”; “alguém que não é instruído”. Portanto, acredito que a segunda possibilidade é a melhor interpretação; ou seja, o indouto é um crente simples que não possuía o dom de interpretar línguas humanas ou que desconhecia o idioma que era falado no culto (vs.23-24). Era um “indagador” cuja posição estava entre o descrente e o crente mais informado.16 O cerne deste problema não é a incapacidade do indouto para entender as verdades da fé cristã, mas a incapacidade de entender o idioma falado no culto sem a tradução. 

Prosseguindo o seu argumento, Paulo faz uma pergunta hipotética ou imaginária aquele que fala em línguas no culto público: E, se tu bendisseres apenas em espírito, como dirá o indouto o amém depois da tua ação de graças? O indouto ou a pessoa como menos instrução não poderá dizer amém17 às ações de graças daquele que fala em línguas estrangeiras, visto que o tal não compreende o que está sendo dito. Acerca do significado da palavra amém, Augustus Nicodemus Lopes escreve: 

O povo de Deus no período do Antigo Testamento, por vezes, expressava seu assentimento à Lei e seu desejo de submeter-se a ela dizendo “amém” após a sua leitura (Dt 27.15; Ne 5.13). Às vezes, diziam “amém” em aquiescência à oração de outros (1 Rs 1.36) ou em ação de graças (1 Cr 16.36; veja SI 106.48). As igrejas cristãs primitivas seguiram o exemplo de Israel em associar-se audivelmente com as orações e ações de graça em seu favor. O artigo definido antes de “amém” (o amém) em 1 Coríntios 14.16 mostra que essa era a prática comum.18

No entanto, se a oração era realizada em outro idioma, os menos informados não poderiam dizer amém. No versículo 17 temos uma repreensão. Paulo não tece uma crítica ao ato de gratidão que o falante em línguas presta a Deus em oração, pois é algo bom; antes, ele critica a forma que a oração é realizada – em línguas. O apóstolo censura aquele que ora em línguas pela desconsideração para com os desinformados, os quais não recebem nenhum benefício espiritual porque não entendem o idioma falado.

Concluindo as razões que confirmam suas orientações sobre o uso adequado do dom de línguas no culto público, Paulo escreve no versículo 18: Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que vós. Praticamente não sabemos de nenhuma situação em que Paulo falou em línguas estrangeiras. Não há nenhum registro no livro de Atos e nas cartas de Paulo que denote que ele falou em vários idiomas em diferentes lugares. 

É somente por meio dessa revelação pessoal, feita com o objetivo de reforçar seu argumento contra o uso das línguas não interpretadas na igreja, que sabemos que o apóstolo também falava em línguas. Falar em línguas fez parte da experiência dos demais apóstolos pelo menos uma vez, no Pentecostes (At 2.4), e, provavelmente, fazia parte do equipamento sobrenatural mencionado por Paulo em 2 Coríntios 12.12 que visava autenticar o ministério apostólico.19
  
Apesar de falar mais idiomas humanos que os coríntios pelo poder do Espírito Santo, percebemos, com esta afirmação, que Paulo se mostrava bastante reservado com relação ao uso deste dom. A repreensão contra a prática inadequada das línguas no culto não era porque Paulo não tinha a experiência pessoal de falar em línguas; pelo contrário, ele falava mais línguas estrangeiras que os demais crentes em Corinto. Aparentemente, este dom não consistia apenas na habilidade de falar uma mesma língua pelo poder sobrenatural Espírito Santo, mas várias línguas.20 
              
Por vezes, os pentecostais e neopentecostais costumam argumentar que se os crentes tradicionais, opositores do hábito de falar em línguas “estranhas”, experimentassem este dom, indubitavelmente mudariam de opinião. Entretanto, vimos que Paulo falava vários idiomas humanos e mesmo assim era reservado quanto ao uso que os coríntios faziam desse dom nos cultos. 
    
Em seguida, no versículo 19, Paulo acentua que, mesmo que fosse capaz de falar milhares de palavras em idiomas estrangeiros, ainda assim preferia falar na igreja poucas palavras na própria língua para que houvesse o entendimento da mensagem e a igreja fosse edificada. A preferência do apóstolo em instruir a igreja numa língua conhecida por todos não deveria ser observada pelos pentecostais e neopentecostais? Eles não deveriam refrear o uso inadequado que fazem das “supostas línguas” nos cultos? Ou eles não desobedecem as regras estabelecidas por Paulo nos versículos 27-28? Claro que sim! Não somente dois ou três falam em línguas no culto, mas vários, ao mesmo tempo e sem tradução.

Não obstante, para corroborar a prática da “oração em línguas” no âmbito privado, os pentecostais e neopentecostais citam como base os versículos 18-19. Segundo eles, Paulo tinha o hábito de orar em línguas em secreto. D.A. Carson afirma:

Não há defesa mais firme para o uso privado do falar em línguas do que essa [passagem demonstra], e tentativas de evitar essa conclusão se tornam marcantemente insignificantes sob exame. [...] Não adianta supor que Paulo está aconselhando o uso privado e silencioso de línguas durante um culto, enquanto outro ministra. [...] Já vimos que Paulo vê a oração com o espírito como uma forma válida de oração e adoração; o que ele não permitirá é a não inteligibilidade na igreja. A única conclusão possível é que Paulo exercia seu impressionante dom de línguas em particular.21 

Carson tenta extrair dos versículos 18-19 o que Paulo não disse, ou pelo menos não deixou claro em nenhuma de suas cartas. Ele não especificou quando ou onde falou em diferentes línguas humanas. Alegar que Paulo tinha e ensinou o hábito da “oração em línguas em particular” é uma especulação pífia. Conforme assegura John MacArthur:   

Em 1 Coríntios 14, Paulo certamente não fez uma apologia ao uso privado e egoísta do dom de línguas. Ao contrário, ele confrontava o orgulho da congregação de Corinto. Eles achavam que eram superiores porque alguns deles falavam em dialetos que eles não conheciam; mas Paulo, que tinha milagrosamente falado em línguas estrangeiras mais do que qualquer um deles, queria que entendessem que o amor superava qualquer dom, não importava o quão espetacular ele fosse. Quando Paulo exercia seus dons dentro do corpo de Cristo, sua prioridade sempre era a edificação de outras pessoas na igreja. Qualquer noção do uso autocentrado de um dom teria prejudicado todo o argumento do apóstolo em 1 Coríntios 12-14.22  
   
iii. O princípio do entendimento das línguas aplicado aos não crentes (vs.21-25) 

Quando Paulo estivesse na igreja para ensinar, preferia falar palavras inteligíveis a falar em um idioma desconhecido por todos. Sendo assim, onde o dom de línguas se encontra no plano de Deus? Anteriormente, Paulo havia exortado severamente os coríntios, dizendo que não podia trata-los como crentes maduros ou espirituais, pois ainda eram meninos na fé, imaturos e carnais, e praticavam os pecados dos descrentes (3.1-4).

Os termos meninos ou crianças são usados de modo figurado nas Escrituras para expressar a deficiência que alguns crentes possuem quanto ao entendimento espiritual das coisas de Deus. Enfatiza um estado de ignorância ou de confusão intelectual das doutrinas da fé cristã em oposição ao entendimento e a sabedoria (Mt 11.16-17; Ef 4.14; Hb 5.11-14). Assim, os coríntios possuíam um entendimento deficiente e confuso acerca das línguas. A paixão que demonstravam por este dom confirmava isso. Eles deveriam ser crianças na maldade, e adultos no entendimento (vs.20). John MacArthur escreve:

Com relação ao mal, os coríntios eram qualquer coisa menos meninos. Eles estavam altamente avançados em todo tipo de pecado. Eles tiveram praticamente todas as manifestações da carne e quase nenhuma do fruto do Espírito (Gl 5.19-23). Eles eram meninos agitados de um lado para o outro e levados ao redor por todo vento de doutrina (Ef 4.14). Pelo seu desejo egoísta de se auto edificarem, abusaram do dom de línguas e estavam, entre outras coisas, ignorando o resto da família de Deus.23 

Senão vejamos a maneira em que as línguas são aplicadas aos descrentes:   
     
b) A função e o propósito das línguas (vs.21-22)

Nesta perícope, que abarca os versículos 21-22, Paulo esboça a questão das línguas na história do relacionamento entre Deus e o seu povo. Ele cita no versículo 21 Isaías 28.11-12, dizendo que “as línguas faladas por povos estrangeiros funcionavam em determinados contextos como sinal do juízo de Deus sobre a nação de Israel (Is 14.21)”.24 Augustus Nicodemus Lopes observa:

Isaías estava simplesmente aplicando ao povo rebelde de seus dias as ameaças que Moisés havia feito, em caso de desobediência. Entre as maldições que Deus havia determinado contra seu povo, quando o rejeitasse, estava a invasão por povos estrangeiros (veja Dt 28.49,50). Os profetas que vieram depois de Moisés ocasionalmente mencionaram o idioma desconhecido das nações que Deus usou para punir Israel como sinal do juízo divino (Jr 5.15).

Isaías disse a mesma coisa: Deus haveria de falar em juízo e julgamento aos israelitas rebeldes por intermédio de um povo que levantaria para invadir e desterrar os judeus de Canaã, povo esse cuja língua Israel não conhecia (Is 28.11,12). Historicamente, essas ameaças proféticas se concretizaram quando os assírios e babilônicos invadiram e desterraram os judeus cerca de 600 anos antes de Cristo. Os gritos de guerra dos soldados invasores num idioma desconhecido para os judeus deveria tê-los feito lembrar da maldição.25

Roy Ciampa e Brian Rosner salientam:

A interpretação paulina desse texto mostra que Deus não conseguiu fazer com que seu povo lhe respondesse, nem mesmo tendo lhes falado de uma forma que chamava tanta atenção. Paulo entende que os judeus incrédulos de sua época ainda são culpados diante de Deus e precisam de redenção. Isso mostra que, na opinião dele, nem mesmo o exílio trouxe a nação de Israel de volta para Deus (cf. Rm 3.9-20; 9.2-8,27-33; 10.1-3; Gl 3.10-13; 4.4,5,25; 1Ts 2.14-16).26
        
Contudo, Paulo reporta-se ao Antigo Testamento para ensinar aos Coríntios que as línguas estrangeiras tinham a função e o propósito de demonstrar o juízo de Deus sobre os judeus incrédulos dentre o seu povo (vs.21-22). Os israelitas incrédulos que estavam reunidos na festa do pentecostes ouviram os apóstolos falarem em diversas línguas estrangeiras. Eles deveriam ter entendido que, em breve, Deus enviaria o seu juízo sobre eles. A manifestação deste juízo aconteceu poucos anos depois, quando Jerusalém foi invadida e assolada pelo exército do general romano Tito, no ano 70. Este julgamento foi um dos aspectos de um julgamento mais abrangente, que incluía, além disso, a destruição do templo, da cidade e a dispersão dos judeus para outros lugares do mundo. Estes últimos aspectos do julgamento de Deus sobre o Israel incrédulo são similares aos castigos prometidos em Deuteronômio 28.49-50.

Diante de tudo, entendemos que as línguas foram concedidas por Deus primariamente como um sinal de juízo para os incrédulos. O objetivo deste dom era que ele fosse um sinal para os judeus, conforme a profecia de Isaías. Se observarmos atentamente o livro de Atos, perceberemos que todas as vezes em que ocorreu a manifestação das línguas, os judeus estavam presentes (veja At 2.4-6; 8.14-18; 10.45-46; 19.6). Portanto, os coríntios, os pentecostais e os neopentecostais não deveriam ignorar este aspecto das línguas estrangeiras, mas terem outra atitude para com este dom; deveriam ser cautelosos e não agirem como “crianças desprovidas de juízo” que ficam excitadas com um brinquedo! A profecia, em contrapartida, foi concedida por Deus com um duplo propósito: a edificação coletiva dos crentes como igreja (vs.3,22b), e alcançar os incrédulos através da exortação e consolação, para, assim, levá-los ao arrependimento de seus pecados e adorar a Deus (vs.3,24-25).

Todavia, a função e o propósito das línguas não era somente demonstrar o juízo de Deus; existia ainda outro fator que deve ser observado. No plano histórico da salvação executada por Cristo Jesus, e, por conseguinte, no contexto da igreja do primeiro século, as línguas tiveram um papel crucial. Primeiro, as línguas serviram para mostrar que uma transição estava ocorrendo, ou seja, a mudança da antiga para a nova aliança (vs.21-22; veja At 2.5-21), e que o evangelho seria divulgado em todo o mundo (At 1.8). Segundo, Paulo considera as línguas como um dom que é útil para a edificação da igreja, desde que sejam exercidas no culto público e acompanhadas pela tradução (vs.27-28). Porém, quando as línguas eram usadas fora do culto público, denotava um sinal que autenticava o evangelho, como foi no pentecostes. Embora Deus tenha usada a profecia para revelar o evangelho à sua igreja, o dom de línguas foi uma adição de um milagre linguístico impactante para corroborar a profecia e aqueles que anunciavam o evangelho como enviados de Deus.

Pessoalmente, acredito que as línguas foram concedidas e restritas ao período apostólico. Depois de cumprir o seu propósito na história da igreja, com a expansão do evangelho ao mundo, e a conclusão do cânon das Escrituras, as línguas não foram mais necessárias e, portanto, cessaram. Mas as línguas não ressurgiram com o movimento pentecostal, no final do século 19? E o fenômeno das línguas modernas? É verdadeiro ou falso? Continuarei meu argumento em defesa da cessação das línguas na terceira parte deste ensaio. 

c) O efeito das línguas usado de forma equivocada (vs.23)

Paulo, agora, descreve o resultado que as línguas produzem quando não são usadas conforme o padrão estabelecido nos versículos 27-28. O apóstolo imagina toda a igreja reunida para um culto público. De repente, muitos ou todos [ênfase de Paulo] os crentes começam a falar em línguas em frenesi, e, assim, o culto é dominado pela histeria e por manifestações corporais espetaculares. Comportamentos similares podem ser vistos nos populares “terreiros de macumba”, no pentecostalismo e no neopentecostalismo. Exatamente no momento de “agitação espiritual”, Paulo supõe que pessoas não instruídas ou incrédulas entrassem no culto; talvez movidas pela curiosidade. Ao se deparar com a cena, a reação dos indoutos ou não instruídos [pessoas que não conhecessem outras línguas; ou talvez pessoas que não tivessem o dom de interpretação] e dos incrédulos[pessoas não crentes que nada sabem acerca do evangelho], seria imaginar que todos os que falavam em línguas desconhecidas de forma eufórica e irracional estariam loucos.
   
O verbo grego usado aqui para enlouquecer é empregado na Odisséia de Homero para descrever o estado de frenesi ou delírio dos adoradores de Dionísio ou Baco, o deus do vinho, durante os cultos orgiásticos celebrados em sua honra, quando esses adoradores começavam a dar gritos de louvor a Baco em palavras ou frases sem sentido ou nexo. Nos Escritos Herméticos, a palavra “loucos” é usada para descrever a impressão que os iniciados, cheios da gnose, deixavam nos estranhos.27    
    
Para os demais moradores da cidade de Corinto, o comportamento exaltado e desprovido de domínio próprio (Gl 5.23) destes crentes poderia se assemelhar ao comportamento dos seguidores das religiões pagãs gregas de mistério. É bem provável que Paulo quisesse evitar esta associação entre a igreja de Cristo e os cultos pagãos ao escrever este trecho. Concordo com Augustus Nicodemus Lopes, que afirma que o espetáculo de uma igreja reunida com todos falando línguas ao mesmo tempo funcionaria como uma barreira à conversão dos visitantes. Por outro lado, se a Palavra de Deus estivesse sendo anunciada e explicada pelos profetas, ela penetraria como uma espada afiada nos seus corações e consciências, produzindo convicção de pecado e levando-os, humilhados, diante do trono da graça de Deus e dando-lhes consciência de que Deus estava realmente presente entre eles (vs.24-25). As línguas não poderiam produzir essa impressão. Mas a exposição da Palavra de Deus, sim.28

Os versículos 23-25 esboçam a preocupação evangelística de Paulo em não fazer com que o culto a Deus pareça loucura aos menos instruídos e aos descrentes. Talvez os coríntios considerassem as línguas como um sinal do poder de Deus se manifestando no culto. Infelizmente, muitos [não todos] pentecostais e neopentecostais têm este mesmo pensamento equivocado. Entretanto, Paulo não ensina um tipo de espiritualidade que ignora a razão e o bom senso. A impressão que os coríntios passariam aos visitantes é de que eram loucos. Esta é exatamente a imagem que muitos [não todos] os pentecostais e neopentecostais refletem para os visitantes de seus cultos. Se os pentecostais e neopentecostais querem demonstrar que Deus está presente no culto deles e se agrada do que estão fazendo, que preguem a Palavra de Deus fielmente! É o evangelho que levará os descrentes a se renderem a Deus e admitirem que Deus está presente no culto (vs.25), e não “supostas línguas” não traduzidas.

Continua nos próximos dias...

__________
Notas:

[12] Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 682.
[13] Calvino. 1 Coríntios, pág 423-424.
[14] D. A.Carson. A manifestação do Espírito. A contemporaniedade dos dons à luz de 1 Coríntios 12-14, pág 106-107.
[15] Além da Escritura, a palavra indouto era usada para referir-se ao que não era membro das religiões pagãs, mas que participava esporadicamente de seus cultos.
[16] Simon Kistemaker ressalta que assim como as sinagogas tinham os tementes a Deus, cujo status estava entre os não-crentes e os prosélitos, assim também em sua extensão evangelística a Igreja primitiva tinha discípulos ou “inquiridores” (1 Coríntios, pág 685).
[17] Na conclusão de uma oração numa sinagoga era costume o auditório pronunciar um amém responsivo – um termo hebraico que significa “Assim seja!” – como sinal de aprovação sincera àquilo que era dito. Esse costume continuou no culto da Igreja primitiva, como é evidente nos escritos de Paulo e nos dos Pais da Igreja. Os membros da igreja vocalizavam seu consentimento à oração que um deles pronunciava. Se não entendiam uma oração expressa numa língua que lhes era desconhecida, não poderiam dizer amém (Simon Kistemaker. 1 Coríntios, pág 685).
[18] Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág 210.
[19] Ibid, pág 212.
[20] Não é possível sabermos com exatidão como Paulo sabia que falava mais idiomas que os crentes de Corinto, uma vez que aquele que falava em línguas não compreendia o que estava dizendo. Esta era a prática normal deste dom; por isso necessitava de um tradutor. Por outro lado, é bem provável que quando evangelizava em lugares que Jesus não era conhecido, o Espírito Santo concedia sobrenaturalmente o dom de línguas a Paulo para que falasse no idioma ou dialeto do povo. O mesmo ocorria com os demais apóstolos que falaram em idiomas que desconheciam no pentecostes.  
[21] D. A.Carson. A manifestação do Espírito. A contemporaniedade dos dons à luz de 1 Coríntios 12-14, pág 107-108.
[22] John MacArthur. Fogo Estranho, pág 172.
[23] John MacArthur. 1 Corínthians.
[24] Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág 215.
[25] Ibid, pág 215-216.
[26] Roy E. Ciampa e Brian S. Rosner, em o Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, pág 923.
[27] Walter Bauer, F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker. A Greek English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature.
[28] Augustus Nicodemus Lopes. O culto espiritual, pág  218.         

***
Fonte: Bereianos

Leia também:
O dom de variedade de línguas - 1/3

O dom de variedade de línguas - 3/3 (em breve)
.

Por Rev. Hermisten Maia


Trabalho pode ser definido como o esforço físico ou intelectual, com vistas a um determinado fim. O verbo "trabalhar" é proveniente do latim vulgar tripaliar: torturar com otripalium. Este é derivado de tripalis, cujo nome é proveniente da sua própria constituição gramatical: tres & palus (pau, madeira, lenho), que significava o instrumento de tortura de três paus. A idéia de tortura evoluiu, tomando o sentido de "esforçar-se", "laborar", "obrar"[1]

Etimologia à parte, devemos observar, que o trabalho, apresenta as seguintes características:

a) Envolve o uso de energia destinado a vencer a resistência oferecida pelo objeto que se quer transformar – intencionalidade.
b) O trabalho se propõe sempre a uma transformação.
c) Todo o trabalho está ligado a uma necessidade, externa ou interna.
d) Todo trabalho traz como pressuposto fundamental, o conceito de que o objeto, sobre o qual trabalha, é de algum modo aperfeiçoável, mediante o emprego de determinada energia – esforço e perseverança.

Na Idade Média, há de certa forma, um retorno à idéia grega, considerando o trabalho – no sentido manual, (banausi/a) (banausia), "arte mecânica", como sendo algo degradante para o ser humano,[2] e inferior à (sxolh)(scholê), ao ócio, descanso, repouso, à vida contemplativa e ociosa (sxola/zw) (scholazõ), por um lado, e à atividade militar pelo outro. Na visão de São Tomás de Aquino (1225-1274), o trabalho era no máximo, considerado "eticamente neutro".[3] Segundo a igreja romana, "a finalidade do trabalho não é enriquecer, mas conservar-se na condição em que cada um nasceu, até que desta vida mortal, passe à vida eterna. A renúncia do monge é o ideal a que toda a sociedade deve aspirar. Procurar riqueza é cair no pecado da avareza. A pobreza é de origem divina e de ordem providencial," interpreta Pirenne.[4]

Ainda na Idade Média, a posição ocupada pelo trabalho era regida pela divisão gradativa de importância social: Oradores (eclesiásticos), Defensores (guerreiros) e Lavradores (agricultores). Desta forma, os eclesiásticos, no seu ócio e abstrações "teológicas" é que tinham a prioridade, ocupando um lugar proeminente. Biéler comenta: “O trabalho, especialmente o trabalho criador de bens e riqueza, o trabalho manual, se não decaíra mais até o nível do trabalho servil da Antiguidade, foi, todavia, considerado como uma necessidade temporal desprezível com relação aos exercícios da piedade. E aqueles que se dedicavam às atividades econômicas e financeiras, os negociantes e banqueiros, eram particularmente desconsiderados.”[5]

Não nos cabe aqui analisar a história da filosofia do trabalho, contudo, devemos mencionar, que a Reforma resgatou o conceito cristão de trabalho.

Na ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) estavam acordes quanto à responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação através do trabalho. Não há lugar para ociosidade. Com isto, não se quer dizer que o homem deva ser um ativista, mas sim, que o trabalho é uma "bênção de Deus". Lutero teve uma influência decisiva, quando traduziu para o alemão o Novo Testamento (1522), empregando a palavra "beruf" para trabalho, em lugar de "arbeit". "Beruf", acentua mais o aspecto da vocação do que o do trabalho propriamente dito. As traduções posteriores, inglesas e francesas, tenderam a seguir o exemplo de Lutero. A ideia que se fortaleceu, é a de que o trabalho é uma vocação divina.[6] Calvino, diz: “Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante os olhos de Deus.”[7]

Calvino defendeu três princípios éticos fundamentais: Trabalho, Poupança e Frugalidade.[8] Note-se que a poupança deveria ter sempre o sentido social.[9] Comentando 2Co 8.15, diz: “Moisés admoesta o povo que por algum tempo fora alimentado com o maná, para que soubesse que o ser humano não é alimentado por meio de sua própria indústria e labor, senão pela bênção de Deus. Assim, no maná vemos claramente como se ele fosse, num espelho, a imagem do pão ordinário que comemos. (...) O Senhor não nos prescreveu um ômer ou qualquer outra medida para o alimento que temos cada dia, mas ele nos recomendou a frugalidade e a temperança, e proibiu que o homem exceda por causa da sua abundância.[10] Por isso, aqueles que têm riquezas, seja por herança ou por conquista de sua própria indústria e labor, devem lembrar-se de que o excedente não deve ser usado para intemperança ou luxúria, mas para aliviar as necessidades dos irmãos. (...) Assim como o maná, que era acumulado como excesso de ganância ou falta de fé, ficava imediatamente putrificado, assim também não devemos alimentar dúvidas de que as riquezas que são acumuladas à expensa de nossos irmãos são malditas, e logo perecerão, e seu possuidor será arruinado juntamente com elas, de modo que não conseguimos imaginar que a forma de um rico crescer seja fazendo provisões para um futuro distante e defraudando os nossos irmãos pobres daquela ajuda que a eles é devida.”[11]

Para Calvino a riqueza residia em não desejar mais do que se tem e a pobreza, o oposto.[12] Por sua vez, também entendia que a prosperidade poderia ser uma armadilha para a nossa vida espiritual: “Nossa prosperidade é semelhante à embriaguez que adormece as almas.”[13] “Aqueles que se aferram à aquisição de dinheiro e que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se culpados de sacrilégio.”[14] Daí que, para o nosso bem, o Senhor nos ensina através de várias lições a vaidade dessa existência.[15] Comentando o Salmo 62.10, diz: “Pôr o coração nas riquezas significa mais que simplesmente cobiçar a posse delas. Implica ser arrebatado por elas a nutrir uma falsa confiança. (...) É invariavelmente observado que a prosperidade e a abundância engendram um espírito altivo, levando prontamente os homens a nutrirem presunção em seu procedimento diante de Deus, e a se precipitarem em lançar injúria contra seus semelhantes. Mas, na verdade o pior efeito a ser temido de um espírito cego e desgovernado desse gênero é que, na intoxicação da grandeza externa, somos levados a ignorar quão frágeis somos, e quão soberba e insolentemente nos exaltamos contra Deus.”[16] Em outro lugar: “Quanto mais liberalmente Deus trate alguém, mais prudentemente deve ele vigiar para não ser preso em tais malhas.”[17] “Quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos transferindo para elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a Deus.”[18] A nossa riqueza está em Deus, Aquele que soberanamente nos abençoa.[19] Portanto, “.... é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança.”[20] Quanto ao dinheiro, como tudo que temos provém de Deus, “o dinheiro em minha mão é tido como meu credor, sendo eu, como de fato sou, seu devedor.”[21] Somos sempre e integralmente dependentes de Deus: “Um verdadeiro cristão não deverá atribuir nenhuma prosperidade à sua própria diligência, trabalho ou boa sorte, mas antes ter sempre presente que Deus é quem prospera e abençoa.”[22]

Max Weber (1864-1920) ao analisar o progresso econômico protestante, não conseguiu captar este aspecto fundamental no protestantismo, que enfatize o trabalho, não simplesmente pelo dever ou vocação, conforme Weber entendeu, mas sim, para a glória de Deus; este é o fator preponderante, que escapou à sua compreensão.[23]

As Escrituras nos ensinam que Deus nos criou para o trabalho (Gn 2.8,15). O trabalho, portanto, faz parte do propósito de Deus para o ser humano, sendo objeto de satisfação humana: “Em vindo o sol, (...) sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até à tarde” (Sl 104.22-23). Na concepção cristã, o trabalho dignifica o homem, devendo o cristão estar motivado a despeito do seu baixo salário ou do reconhecimento humano; embora as Escrituras também observem que o trabalhador é digno do seu salário (Lc 10.7). Seu trabalho deve ser entendido como uma prenda feita a Deus, independentemente dos senhores terrenos; deste modo, o que de fato importa, não é o trabalho em si, mas sim o espírito com o qual ele é feito; a dignidade deve permear todas as nossas obras, visto que as realizamos para o Senhor. A prestação de contas de nosso trabalho deverá ser feita a Deus; é Ele com o seu escrutínio perfeito e eterno Quem julgará as obras de nossas mãos, daí a recomendação do Apóstolo Paulo:

E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus (...). Servos, obedecei em tudo aos vossos senhores segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-só agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor, e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas. Senhores, tratai aos servos com justiça e com eqüidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu (Cl 3.17,22-4.1)(Vd. Ef 6.5-9).

Portanto, não há desculpas para a fuga do trabalho, mesmo em nome de um motivo supostamente religioso (1Ts 4.9-12/Ef 4.28; 1Tm 5.11-13).

Um comentarista bíblico, resume bem o espírito cristão do trabalho, afirmando: “O trabalhador deve fazê-lo como se fosse para Cristo. Nós não trabalhamos pelo pagamento, nem por ambição, nem para satisfazer a um amo terreno. Trabalhamos de tal maneira que possamos tomar cada trabalho e oferecê-lo a Cristo.”[24] (Vd. 1Tm 6.1-2).

Lamentavelmente, o conceito Protestante do trabalho, no pensamento moderno, foi secularizado, abandonando aos poucos a concepção religiosa que lhe dera suporte, tornando-se agora apenas uma questão de racionalidade, não necessariamente de "vocação" ou de "glorificação a Deus". Perdeu-se a “infra-estrutura”, ficou-se apenas com a “superestrutura.”[25]

O homem é um ser que trabalha. A sua mão é uma arma "politécnica", instrumento exclusivo, incomparável de construção, reconstrução e transformação. Faz parte da essência do homem trabalhar. O homem é um artífice que constrói, transforma, modifica; a sua vida é um eterno devir, que se realiza no fazer como expressão do seu ser... O ser como não pode se limitar ao simples fazer, está sempre à procura de novas criações, que envolvem trabalho. Acontece, que se o homem é o que é, o seu trabalho revela parte da sua essência. A "originalidade" do seu trabalho será uma decorrência natural da sua autenticidade. O homem autentica-se no seu ato construtivo. O trabalho deve ser visto primariamente como um privilégio, um compartilhar de Deus com o homem na preservação da Criação (Gn 2.15). Por isso, nunca poderemos ter como meta da sociedade, a ausência do trabalho. Deixar de trabalhar, significa deixar de utilizar parte da sua potência, equivale a deixar parcialmente de ser homem; em outras palavras, seria uma desumanidade.

Algumas conclusões:

Todos somos vocacionados ao trabalho. Sabemos que no cumprimento de nossa vocação estamos servindo primeiramente a Deus. Contudo, isso não nos deve tornar presas ingênuas de manipulações e explorações. Devemos trabalhar dignamente e lutar pelos nossos direitos dentro do que permite a lei, desde que esta não fira as Escrituras. Buscar um lugar melhor onde pudemos realizar de modo mais eficiente o nosso trabalho e, termos remuneração compatível, não entra em conflito com as Escrituras; no entanto, o não reconhecimento de nosso trabalho nunca poderá servir de pretexto para a nossa baixa qualidade. Estamos sempre servindo a Deus.

Para nós Reformados, o trabalho é uma das bênçãos de Deus. Num país como nosso com alta taxa de desemprego, devemos de forma ainda mais veemente agradecer a Deus pelo trabalho que temos.

A maneira como trabalhamos reflete a nossa vida espiritual (Ef 6.5-7). Lembremo-nos também, de que a guarda do “sábado” é precedida por seis dias de trabalho (Ex 20.9). O descanso é para quem trabalha.

Por sua vez, os patrões e chefes cristãos que vivem no Espírito, por certo, não se aproveitam da sua autoridade para pressionar os que estão sob as suas ordens, valendo-se do fato de que há mais procura do que oferta de emprego, a fim de ameaçá-los, menosprezá-los ou tratá-los indignamente como se fossem apenas uma ferramenta humana descartável. A justiça divina (Is 64.6) deve ser a tônica da relação patrão-empregado e empregado-patrão. A base para este relacionamento, é a certeza de que, quer sejamos empregados, quer sejamos patrões, todos temos o mesmo Senhor no céu (Ef 6.9; Cl 4.1). A possibilidade real desta prática está no fato de sermos guiados e capacitados pelo Espírito Santo.

____________
Notas:
[1]Cf. Trabalho: In: José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Lisboa, Confluência, 1956, II, p. 2098; Trabalhar: In: Aurélio B.H. Ferreira, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 2ª ed. rev. aum. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, p. 1695; Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, 2ª ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 779; Trabajar: In: J. Corominas, Diccionário Crítico Etimológico de la lengua Castellana, Madrid, Editorial Gredos, (1954), Vol. 4, p. 520-521; Trabalho: In: Antonio Houaiss, ed. Enciclopédia Mirador Internacional, São Paulo, Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1987, Vol. 19, p. 10963-10964.
[2] banausi/a (banausia), está associada à “vida e hábitos de um mecânico”; metaforicamente é aplicada à “mau gosto” e “vulgaridade”. (Vd. Liddell & Scott, Greek-English Lexicon, Oxford, Clarendon Press, 1935, p. 128b).
[3]Vd. Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, São Paulo, Pioneira, 1967, p. 52ss.
[4]H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, 6ª ed. São Paulo, Mestre Jou, 1982, p. 19.
[5] André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 1999, p. 118. Vd. Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, São Paulo, Martins Fontes, 1991, passim.
[6] Vejam-se, Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, p. 52 (e notas correspondentes); André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 628; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 21ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1989, p. 114.
[7] João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 77.
[8]É interessante notar que em 1513, N. Maquiavel (1469-1527), na sua obra O Príncipe, dedicada a Lorenzo di Medicis, diz: “... um príncipe deve gastar pouco para não ser obrigado a roubar seus súditos; para poder defender-se; para não se empobrecer, tornando-se desprezível; para não ser forçado a tornar-se rapace; e pouco cuidado lhe dê a pecha de miserável; pois esse é um dos defeitos que lhe dão a possibilidade de bem reinar.” [N. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo, Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. IX), 1973, p. 72]. (grifos meus).
[9] Vd. por exemplo, J. Calvino, As Institutas, III.7.5-6; III.10.4-5; Idem., Exposição de 2 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, (2 Co 8), p. 165ss.; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 643. (Veja-se, também, Hermisten M.P. Costa, As Questões Sociais e a Teologia Contemporânea, São Paulo, 1986. Quando à ação prática dos conceitos de Calvino em Genebra, Vd. Alderi Souza de Matos, João Calvino e o Diaconato em Genebra: In: Fides Reformata, 2/2 (1997), p. 61-68; Ronald S. Wallace, Calvin, Geneva and the Reformation, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House/Scottish Academic Press, 1990, passim.
[10]Ver: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 33, 75; João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (1Tm 6.8), p. 169; João Calvino, As Institutas, III.10.4.
[11] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, (2 Co 8.15), p. 177. Vd. também, João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, p. 45. Comentando o Salmo 68, Calvino observa que o Deus da glória é também o Deus misericordioso; em seguida observa a atitude pecaminosa comum aos homens: “Geralmente distribuímos nossas atenções onde esperamos nos sejam elas retribuídas. Damos preferência a posição e esplendor, e desprezamos ou negligenciamos os pobres.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999,São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 68.4-6), p. 645]. 
[12] “Confesso, deveras, que não sou pobre; pois não desejo mais além daquilo que possuo.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 46). “Nossa cobiça é um abismo insaciável, a menos que seja ela restringida; e a melhor forma de mantê-la sob controle é não desejarmos nada além do necessário imposto pela presente vida; pois a razão pela qual não aceitamos esse limite está no fato de nossa ansiedade abarcar mil e uma existências, as quais debalde sonhamos só para nós.” [João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.7), p. 168]. 
[13] Juan Calvino, El Uso Adecuado de la Afliccion: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan, T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 19), p. 227. Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.6), p. 631; As Pastorais, (1Tm 6.17), p. 181.
[14]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.6), p. 168. “Todos quantos têm como seu ambicioso alvo a aquisição de riquezas se entregam ao cativeiro do diabo” [João Calvino, As Pastorais, (1Tm 6.8), p. 169].
[15] Vd. João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 60.
[16] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, Vol. 2, (Sl 62.10), p. 580.
[17] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.6), p. 633.
[18] João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998 (1Tm 6.17), p. 182.
[19] “.... a glória de Deus deve resplandecer sempre e nitidamente em todos os dons com os quais porventura Deus se agrade em abençoar-nos e em adornar-nos. De sorte que podemos considerar-nos ricos e felizes nele, e em nenhuma outra fonte.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 48.3), p. 356].
[20] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 17.14), p. 346.
[21] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 56.12), p. 504.
[22]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 42.
[23] Vd. Christopher Hill, O Eleito de Deus: Oliver Cromwell e a Revolução Inglesa, São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p. 195ss.
[24]William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires, La Aurora, 1973, Vol. 11, p. 176.
[25] Biéler faz uma constatação relevante: “A íntima interpenetração da Reforma e da Renascença contribuiu amplamente para a sua promoção no Ocidente. Mas o materialismo e as ideologias substitutivas engendradas pela secularização do pensamento, no decurso dos séculos subseqüentes, acabaram por fazer crer que uma civilização arrancada de suas raízes espirituais conseguiria produzir espontaneamente todos esses valores. Essas ideologias substitutivas proliferaram. (...) Todas essas ideologias, que tomaram o lugar da fé cristã, transformaram-se em crenças que, uma vez dissipadas, deixaram no Ocidente e no mundo atual um vácuo espiritual, e muitas vezes um desespero, que se mostram propícios a toda sorte de novidades inflamadas da demagogia religiosa, filosófica ou política.” (André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes, p. 54-55).
***
Sobre o autor: Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, pastor auxiliar 1º I.P de São Bernardo do Campo, SP e Professor de Teologia Sistemática e Filosofia no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, São Paulo, Capital.

Fonte: Monergismo