Isvonaldo sou Protestante

Isvonaldo sou Protestante

quinta-feira, 4 de setembro de 2014



Por R. C. Sproul


É vitalmente importante que os cristãos considerem a questão da consciência. Na visão clássica, a consciência foi considerada algo que Deus implantou dentro de nossa mente. Algumas pessoas chegaram a descrever a consciência como a voz de Deus dentro de nós. A ideia era que Deus nos criou de tal maneira, que havia um elo entre as sensibilidades da mente e a consciência, com sua responsabilidade intrínseca para com as leis eternas de Deus. Por exemplo, considere a lei da natureza que o apóstolo Paulo afirma estar escrita em nosso coração. Havia uma sensibilidade de consciência, muito antes de Moisés descer do monte Sinai com as tábuas de pedra.

O famoso filósofo Immanuel Kant era cético, no que diz respeito à capacidade humana de racionar, a partir deste mundo, sobre o mundo transcendente de Deus. Apesar disso, ele ofereceu o que chamou de argumento moral para a existência de Deus, um argumento que se baseou no que ele chamou de senso universal de dever implantado no coração de todo ser humano. Kant acreditava que toda pessoa carregava em si um senso genuíno do que deveria fazer em determinada situação. Ele chamou isso de imperativo categórico. Kant acreditava que há duas coisas que enchem a alma com admiração e reverência sempre novas e crescentes: os céus fascinantes, no espaço, e a lei moral, no íntimo do ser humano. É importante notar isto, porque até no âmbito da filosofia secular tem havido, historicamente, um reconhecimento da consciência.

Histórica e classicamente, a consciência foi vista como nossa ligação com a ética transcendente que reside em Deus. Todavia, com a revolução moral de nossa cultura, surgiu uma abordagem diferente da consciência, e esta abordagem se chama visão relativista. Estamos realmente na era do relativismo, na qual valores e princípios são considerados meras expressões de desejos e interesses de um grupo específico de pessoas, em determinado momento da história. Ouvimos, repetidas vezes, que não há absolutos no mundo de hoje.

No entanto, se não há nenhum absoluto, princípios transcendentes, como explicamos este mecanismo que chamamos de consciência? Dentro de uma estrutura relativista, vemos a consciência ser definida em termos evolucionários: as personalidades interiores subjetivas das pessoas estão reagindo a tabus evolucionários vantajosos, que lhes foram impostos por sua sociedade ou por seu ambiente. Havendo chegado a um tempo, em nosso desenvolvimento, em que esses tabus não servem mais para promover nossa evolução, podem ser descartados sem qualquer consideração às consequências.

Anos atrás, quando eu trabalhava como professor, aconselhei uma universitária que fora tomada por um profundo senso de culpa, porque se entregara a atividades sexuais com seu noivo. Eu lhe disse que o meio de vencer sua culpa era reconhecer a fonte da culpa. Ela argumentou que não fizera nada de errado; seus sentimentos de culpa foram resultado de haver sido vítima de viver numa sociedade regida por uma ética puritana. Explicou que fora condicionada por certos tabus sexuais que a fizeram sentir-se culpada, quando não devia, e que seu envolvimento sexual fora uma expressão madura e responsável de sua própria chegada à maioridade.

Apesar disso, ela me procurou chorando e exclamando que ainda se sentia culpada. Disse-lhe que é possível uma pessoa sentir-se culpada, porque tem uma consciência intranquila e perturbada quanto a algo que não é realmente uma transgressão da lei de Deus; mas que, naquele caso, ela quebrara a lei de Deus e devia se alegrar por se sentir culpada, visto que a dor, embora nos seja desagradável, é importante para a nossa saúde. No âmbito físico, o sentimento de dor indica que há algo errado no corpo. No aspecto espiritual, a dor de culpa pode indicar-nos que algo está errado em nossa alma. Há um remédio para isso, aquele que a igreja tem oferecido sempre, ou seja, o perdão. Culpa real exige perdão real.

O problema desta mulher ilustra o conflito entre o entendimento tradicional de pecado e consciência e o novo conceito de consciência. Este novo conceito vê a consciência meramente como um processo evolucionário condicionador da sociedade, que é um resultado de tabus impostos. Como o cristão lida com tudo isto? Há uma visão bíblica quanto à consciência?

O termo hebraico traduzido por “consciência” ocorre no Antigo Testamento, mas esparsamente. Entretanto, no Novo Testamento, parece haver um reconhecimento mais pleno da importância da função da consciência na vida cristã. A palavra grega que expressa consciência aparece 31 vezes, e parece ter uma dimensão dupla, como argumentavam os eruditos medievais. Envolvia a ideia de acusar e a ideia de justificar. Quando pecamos, a consciência fica perturbada. Ela nos acusa. A consciência é o instrumento que o Espírito Santo usa para nos convencer, trazer-nos ao arrependimento e recebermos a cura do perdão que flui do evangelho.

No entanto, há também um sentido em que esta voz moral, em nossa mente e coração, igualmente nos diz o que é certo. Lembre-se de que o cristão é sempre um alvo de críticas que podem ou não ser válidas. Até dentro da comunidade cristã, há grandes diferenças de opinião a respeito de comportamentos que são agradáveis a Deus, e que não o são. Um homem aprova dançar; outro o desaprova. Como sabemos quem está certo?

Vemos, no Novo Testamento, que a consciência não é a autoridade ética final para a conduta humana, porque a consciência é capaz de mudar. Enquanto os princípios de Deus não mudam, nossa consciência hesita e se transforma. Estas mudanças podem ser positivas ou negativas. Por exemplo, os profetas do Antigo Testamento anunciaram o juízo de Deus sobre o povo de Israel, que se acostumara com o pecado. Uma das grandes acusações que veio sobre Israel, nos dias do rei Acabe, foi que haviam se tornado tão insensíveis e acostumados com o mal, que o povo tolerava a impiedade do rei Acabe. A consciência dos israelitas estava calejada e cauterizada. Pense sobre esta realidade em sua vida, sobre as ideias que você tinha quando criança. Considere as pontadas de consciência que devem ter penetrado em sua vida, quando você experimentou, pela primeira vez, certas coisas que sabia serem erradas. Você ficou perturbado e abalado. Talvez, até ficou doente. Mas, o poder do pecado pode corroer a consciência até ao ponto de ela se tornar uma voz débil nos profundos recessos de sua alma. Por meio disto, nossa consciência se torna endurecida e cauterizada, condenando o que é certo e justificando o que é errado.

É interessante que podemos sempre achar alguém que oferecerá uma defesa convincente e bem formulada da legitimidade ética de algumas das atividades que Deus julga ofensivas a ele. Como humanos, nossa capacidade de defender a nós mesmos de culpabilidade moral é bem desenvolvida e acentuada. Somos uma cultura em problemas, quando começamos a chamar o mal de bem, e o bem de mal. Para fazer isso, temos de distorcer a consciência e, em essência, tornar o homem a autoridade final da vida. Tudo que alguém precisa fazer é ajustar sua consciência para se encaixar na ética do homem. Assim, podemos viver com paz na mente, pensando que estamos vivendo num estado de retidão.

A consciência pode ser sensibilizada de maneira distorcida. Lembre-se: a visão evolucionária e relativista, quanto à consciência, está fundamentada sobre o princípio de que ela é uma reação subjetiva a tabus impostos pela sociedade. Embora eu não creia que essa opinião seja convincente, tenho de reconhecer que há um elemento de verdade nessa opinião. Reconhecemos que pessoas podem ter consciência altamente sensibilizada, não porque estão sendo instruídas pela Palavra de Deus, mas porque têm sido informadas por regras e normas feitas por homens. Em algumas comunidades cristãs, o teste da fé de alguém é se ele dança ou não dança. Se uma pessoa cresce neste ambiente e decide dançar, o que acontece? Geralmente, a pessoa é dominada por culpa, por haver dançado. Como você responderia a isso? Diria à pessoa que dançar não é pecado, que sua consciência foi mal instruída? Essa pode ser uma abordagem normal, mas tal resposta pode ser problemática por esta razão: a consciência pode justificar, quando deveria estar acusando, e pode acusar, quando deveria estar justificando.

Devemos lembrar que agir contra a consciência é pecado. Martinho Lutero, na Dieta de Worms, esteve em agonia moral, porque se levantou sozinho contra os líderes da igreja e de estados, os quais exigiam que ele se retratasse de seus escritos. Mas Lutero estava convicto de que seus escritos se conformavam à Palavra de Deus; por isso, naquele momento de crise, ele disse: “Não posso retratar-me. Minha consciência está cativa à Palavra de Deus, e agir contra a consciência não é correto, nem seguro”. Esse não foi um princípio que Lutero inventou para a ocasião na Dieta de Worms. É um princípio do Novo Testamento: “Tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23).

Se alguém é criado em um ambiente que o persuadiu de que ler filosofia é pecado, mas, apesar disso, lê filosofia, ele está pecando. Por quê? É porque ler filosofia é pecado? Não, é porque ele está fazendo algo que acredita ser pecado. Se fazemos algo que pensamos ser pecado, ainda que sejamos mal instruídos, somos culpados de pecado. Agimos contra a nossa consciência. Esse é um princípio muito importante. Lutero estava certo em dizer: “Agir contra a consciência não é correto, nem seguro”.

Por outro lado, temos de lembrar que agir de acordo com a consciência pode, às vezes, ser pecado. Se a consciência é mal instruída, procuramos razões para esta má instrução. É mal instruída, porque a pessoa tem sido negligente em estudar a Escritura? Deus se agradou em nos revelar seus princípios, para que a consciência seja bem instruída. Posso achar que não há problema algum em realizar uma atividade específica que Deus proíbe totalmente, e não poderei dizer-lhe no último dia: “Eu não sabia que lhe desagradaria com esta forma de comportamento. Minha consciência não me acusava, e agi de acordo com minha consciência”. Nesse caso, você agiu de acordo com uma consciência que ignorava a Palavra de Deus que lhe estava disponível, a qual você foi chamado a estudar e a ser diligente em entender.

Devemos retornar ao primeiro princípio. Para o cristão, a consciência não é a autoridade final em sua vida. Somos chamados a ter a mente de Cristo, conhecer o bem e possuir mente e coração treinados na verdade de Deus, para que, nos momentos de pressão, sejamos capazes de permanecer firmes com integridade.

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Fonte: Trecho do livro Como Posso Desenvolver uma Consciência Cristã?, futuro lançamento da Editora Fiel.
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Por Thiago Oliveira


Cuidado com os cães, cuidado com esses que praticam o mal, cuidado com a falsa circuncisão! - Filipenses 3:2 (NVI)

A tríplice advertência de Paulo (cuidado, cuidado, cuidado) é um alerta que nos serve até nesta era presente. A palavra no original grego é βλέπετε (blepete) e ocorre 33 em todo o Novo Testamento. Ela dá a ideia de que é preciso estar atento, de olhos bem abertos, vigiar e cuidar-se para não correr riscos. Daí você pergunta: Quais riscos? O que estaria ameaçando os irmãos em Filipos? A mesma coisa que tem ameaçado as igrejas brasileiras: um ensino falso que despreza a Graça e a suficiência de Cristo.

Os cães, os que praticam o mal (ou maus obreiros) e os da falsa circuncisão são referências ao mesmo tipo de pessoas e não à três tipos distintos. O Apóstolo fala aqui de um grupo que lhe deu muito trabalho: os seus próprios patrícios, os judeus. No encalce do ministério paulino estavam judeus e prosélitos, que com suas ações e ensino (as más obras) prejudicavam o crescimento espiritual das congregações, fazendo com que muitos se submetessem aos ritos da antiga aliança, na qual Jesus Cristo, já havia cumprido.

A Carta aos Gálatas é o grande tratado teológico e apologético contra os “judaizantes”, todavia, eles não estavam apenas na região da Galácia. Onde quer que Paulo fosse, encontrava um grupo que coagia os crentes para que estes aderissem a circuncisão. De uma maneira severa, Paulo os chama de cães. A figura canina para um oriental do primeiro século, estava bem longe da que temos hoje. O cão, naquele contexto, não era domesticado e nem era o amigo do homem. Tal animal era selvagem e andava em matilha em busca de alimentos. A ideia é a de que os judaizantes eram semelhantes, com seus “latidos moralistas” vagueando as cidades. Mas, a expressão também era usada pelos judeus de modo pejorativo para se referir aos gentios. E aqui a palavra cão ganha a conotação de “imundo”. Só que agora, o Apóstolo inverte o termo e afirma que os cães não são os gentios, mas sim os tais judeus.

A Graça é um conceito difícil de compreendermos, pois, temos uma cosmovisão meritocrática do mundo. Tudo ou quase tudo é recebido por algo que você se esforçou para realizar. O homem, a cada conquista, quer olhar para seu reflexo no espelho e dizer para si mesmo: “Eu consegui. Eu sou o cara”. É por isso que muitos questionam a eleição incondicional e desprezam a ideia de que não fizemos absolutamente nada para sermos salvos. Assim eram esses judeus. Eles queriam fazer por merecer a salvação. Precisavam demonstrar isso através da observância da lei. Queriam externalizar sua moralidade e por isso levantavam a bandeira da circuncisão. Cristo morreu na cruz para nos remir – pensavam - mas precisamos completar a sua obra nos circuncidando e guardando diversos rituais e regras.

Paulo em sua carta aos Gálatas (Gl 5.2) afirmou que caso os cristãos cedessem a pressão dos judaizantes e fossem circuncidados, eles estariam tornando inútil o sacrifício de Cristo Jesus. Precisamos entender de uma vez por todas que não fizemos e nunca iríamos fazer algo capaz de nos tirar da cegueira espiritual e nos dar uma visão perfeita do que é divino. Nunca teríamos saído da morte para a vida se Deus não nos vivificasse por meio do Seu Filho. Tomar alguma atitude na intenção de se tornar justo aos olhos do SENHOR é reduzir o evento da cruz a algo incompleto, quando na verdade ele é suficiente para nos purificar de toda e qualquer iniquidade.

Vemos hoje práticas judaizantes em toda a parte. O evangelicalismo brasileiro vive afogado nessas práticas. Quem aqui nunca viu uma réplica da bandeira do Estado israelense em algum gabinete pastoral? Pois é, e isso é o de menos. A coisa fica muito mais séria. Tem até um ramo da teologia que coloca Israel numa posição privilegiada em relação as outras nacionalidades. Só que Paulo deixa claro que o povo de Deus não são os judeus, simplesmente por serem judeus. Obviamente que alguns deles eram salvos, o próprio apóstolo vai citar a si próprio como exemplo. Todavia, a maioria, por ser hostil ao evangelho, foi chamada de falsa circuncisão. E se é falsa, isto quer dizer que existe uma verdadeira. E quem é? Eis a resposta:

Pois nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos pelo Espírito de Deus, que nos gloriamos em Cristo Jesus e não temos confiança alguma na carne - Filipenses 3:3 (NVI).

O “judeu legítimo” é todo aquele que deposita a sua fé exclusivamente em Cristo e em mais nada. Há muitos cães que se consideram limpos. Eles negam a graça e se acham merecedores do Reino dos Céus. Não reconhecem a sua imundície. Tais homens querem ousadamente completar o que já está completo. Por isso ao invés da cruz, a rosa ungida e tantos outros amuletos. Não pense você que este negócio na rosa está fora de moda. existe uma igreja em uma das mais movimentadas avenidas da cidade do Recife convidando as pessoas a irem para um culto de libertação pegar a sua rosinha. O alerta continua sendo o mesmo. Por isso fique bastante esperto para não ser abocanhado por um canino engravatado que presta um enorme desserviço à Igreja através de suas heresias. 

Cuidado! Cuidado! Cuidado!

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Fonte: Bereianos

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

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Por Leonardo Dâmaso

Texto base: Rm 5.8-11

Introdução

Expiação limitada é o terceiro dos 5 pontos do calvinismo, e é uma doutrina que se desenvolveu especificamente na tradição reformada. Ao contrário do que muitos pensam, não foi Calvino quem escreveu esta linha doutrinária. Os 5 pontos do calvinismo são apenas uma parte, e não um resumo de toda a doutrina de Calvino baseada nas Escrituras.

Estes 5 pontos foram elaborados somente 54 anos após a sua morte (1509-1564) pelo Sínodo de Dort, “composto de 84 teólogos, 18 representantes seculares, 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro de 1618 até maio de1619”.1

Contudo, o objetivo de se ter formulado os 5 pontos do Calvinismo era de responder e questionar o documento apresentado pelos “discípulos do professor reformado de um seminário holandês chamado Jacob Arminius (1560-1600), que tinha sérias dúvidas quanto à graça soberana de Deus, visto que era inclinado aos ensinos de Pelágio e Erasmo, no que se refere à livre vontade do homem”.2

No entanto, os alunos de Arminius que formularam este documento (os 5 pontos do arminianismo) tinham em mente mudar os símbolos oficiais das doutrinas das Igrejas da Holanda, que se apoiavam na Confissão Belga e no Catecismo de Heidelberg, substituindo assim pelos ensinos de Arminius. Em contra partida, a razão pela qual os 5 Pontos do Calvinismo foram elaborados.

Todavia, a doutrina da expiação limitada salienta a obra da redenção realizada por Cristo através de sua morte na cruz. Não obstante, Jesus se ofereceu como o único e perfeito sacrifício pelos pecados para satisfazer a justiça de Deus, sofrendo a ira divina, tornando-se maldição e morrendo no lugar de pecadores. Em suma, é “a obra que Cristo realizou em sua vida e morte para obter nossa salvação”.3

Esta doutrina também tem como base a doutrina da predestinação, onde se diz que, desde toda a eternidade, antes do mundo vir a existir, e antes que houvesse a queda, Deus escolheu para si um número limitado de pessoas para salvar (Ap 5.9), enquanto o restante é “entregue” aos seus próprios pecados e, por fim, como punição pela desobediência ao Senhor a morte eterna (Rm 1.18-21, 24-32; 6.23).

“A palavra expiação é usada muitas vezes no Antigo Testamento. Além de ser um termo teológico muito incomum”4, significa um “ato ou efeito de expiar; o cumprimento da pena ou castigo que se reputa equivalente à culpa ou delito de alguém.

Significa remir culpas ou delitos pelo cumprimento de pena; ou seja, sofrer as consequênciasde alguém, cumprir a pena que reabilita uma pessoa, e por fim, purificar”.5Vejamos uma ilustração como exemplo que elucida esta verdade sobre a expiação:

“Se um homem não pode pagar uma dívida que tem com o banco, mas se um amigo voluntariamente paga esta dívida por ele, então, esta dívida é coberta e o homem está livre de toda obrigação. Esta é a idéia da expiação”6 e literalmente o que Cristo Jesus fez pelos seus escolhidos na obra da redenção pagando a dívida que tínhamos com Deus.

Explanação

Para que possamos compreender de forma crível todo o conteúdo que compõe a doutrina da expiação limitada, precisamos saber em:

1. O motivo da expiação

Qual foi a razão que levou a Cristo se abdicar de toda a sua glória, vindo a este mundo em forma de homem, nascer do ventre de uma mulher tendo de passar por todo o processo de nascimento, crescimento e desenvolvimento humano e sofrer todas as nossas limitações, fraquezas e tentações que nos assolam, ser perseguido, maltratado e, por fim, morto?

“Por qual motivo Deus operou deste modo para realizar seu fim e cumprir seu propósito? Por que o sacrifício do filho de Deus? Por que, ao morrer, morreu a morte maldita da cruz”? 7

Indubitavelmente, o motivo da expiação foi “afetar a relação de Deus com o pecador, o estado e a condição de Cristo como o Autor Mediatário da salvação, e o estado e a condição do pecador”.8 Contudo, o motivo da expiação é caracterizado por estes 2 pilares:

a) O imensurável amor de Deus.

Podemos ver o amor de Deus explícito como a fonte da expiação nesta passagem em pauta:

João 3.16 – Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Esta passagem denota o quão grande amor Deus teve para com o “mundo perverso e pecador”.9 A expressão de tal maneira não se encontra no grego, mas podemos entender não somente por essa passagem, mas por todo o Novo Testamento, especificamente sobre os textos que abarcam a missão de Jesus, a intensidade do amor de Deus.

O amor de Deus é algo que não se pode medir. A atitude de dar o seu único filho para morrer no lugar e em favor de pecadores (Rm 5.8), para que aqueles que acreditarem em Cristo como o salvador e filho de Deus não serem condenados à morte eterna, mas terem a vida eterna é tremendo!

b) A Sua justiça.

Além do amor de Deus ser o motivo da expiação (Jo 3.16; Ef 2.4), todavia, a justiça de Deus também faz parte deste epítome. A justiça de Deus requeria que Ele “encontrasse o meio para que a penalidade por causa dos nossos pecados fosse paga. Deus não poderia nos aceitar em comunhão consigo mesmo a menos que a penalidade fosse paga.”10

Esta foi à razão pela qual Deus enviou a Cristo para fazer a propiciação. O sacrifício que aplacaria a ira de Deus contra nós por termos ofendido a sua santidade pelos nossos pecados foi transferido para Jesus. Nós que merecíamos todo o sofrimento que Cristo passou a cruz e por fim a morte (Ez 18.4; Rm 6.23). 

Porém, o Senhor se fez maldito por nós sendo imputado sobre si os nossos pecados, suportando a ira de Deus e morrendo na cruz derramando o seu sangue carmesim para que Deus se tornasse propício em nosso favor. Fomos reconciliados com Deus para termos comunhão com o Senhor mediante Cristo pelo Espírito Santo e glorificá-lo em toda a nossa vida.

Romanos 3.25-26– A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impune os pecados anteriormente cometidos; Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Na versão da NBV podemos entender melhor o que Paulo quis dizer nessa passagem. Senão vejamos:

Romanos 3.25-26– “Deus foi quem enviou a Cristo Jesus para levar o castigo pelos nossos pecados, e assim pôr fim à ira de Deus contra nós. Ele usou o seu sangue para, mediante a fé, nos salvar da sua ira. Deste modo, Ele foi justo, mesmo não tendo castigado aqueles que pecaram em tempos passados. Isto porque aguardava a chegada do dia quando Cristo viria e apagaria os pecados anteriormente cometidos”.11 (veja Rm 5.9-11).

2. A necessidade da expiação

Será que não haveria outra forma de Deus salvar a humanidade sem a necessidade da expiação? Era realmente preciso Jesus morrer em nosso lugar?

Indubitavelmente, sabemos pela doutrina da eleição incondicional, o segundo ponto do calvinismo, que o homem não escolhe se voltar para Deus através do seu livre arbítrio, mas é Deus que escolhe salvar quem Ele quiser pela sua “livre e soberana graça”12 independentemente das obras (Ef 2.8; Jo 6.44; 10.24-28; 15.16; 17.6-9,20).

“Contudo, salvar homens perdidos não era necessidade absoluta, mas bondade soberana de Deus”.13 “Portanto, a expiação não foi absolutamente necessária, mas, como conseqüência da determinação de Deus de salvar pessoas, a expiação tornou-se absolutamente necessária”.14 Esta é a visão da expiação chamada de necessidade absoluta.

No entanto, como Deus não era obrigado abrir a porta da salvação a ninguém, devido à necessidade absoluta, a expiação se tornou necessária. “Uma vez que foi proposta, a salvação deveria ser assegurada por meio da satisfação que poderia ser conquistada somente pelo sacrifício substitutivo e pela redenção comprada pelo sangue”.15

Heber Carlos de campos complementa esta verdade acerca da necessidade absoluta dizendo que em Hebreus 2.17 Cristo “teve que experimentar as coisas próprias de um ser humano, ou seja, limitações, fraquezas e tentações.

Ele teve de sofrer para entender as coisas relativas à misericórdia e tinha de ser fiel para ser um sumo sacerdote perfeito. Para que isso viesse acontecer, o redentor teve de passar por um processo de aprendizagem”.16 Também em hebreus é mencionado que é impossível que o sangue de touros e bodes remova pecados (referência aos rituais de purificação do AT) (10.4) e que um sacrifício superior é requerido (9.23).  

Conclui-se, então, que somente o sacrifício de Cristo é eficaz para aniquilar completamente o pecado (9.26), e que não havia outro modo pelo qual Deus pudesse salvar pessoas a não ser pela morte de Jesus em nosso lugar.

3. A natureza da expiação

Acerca deste tema, que trata de forma indelével sobre a obediência de Cristo, que é descrita como obediência ativa e passiva, veremos que nestes 2 aspectos estão inseridos “as categorias mais especificas com que as Escrituras apresentam a obra expiatória de Cristo, que são sacrifício, propiciação, reconciliação e redenção”.17

John Murray corrobora que “a distinção entre a obediência ativa e passiva não é a despeito de tempos.

Deve-se descrever toda a obra de obediência de nosso Senhor em cada fase e período, como ativa e passiva, e deve-se evitar o engano de pensar que a obediência ativa se aplica em sua vida, enquanto a obediência passiva em seu sofrimento final e morte. O uso e o propósito legítimos dessa fórmula servem para enfatizar 2 aspectos da obediência vicária de Nosso Senhor”.18 Senão vejamos:  

a) A obediência ativa

Este termo trata especificamente sobre a obediência de Cristo por nós. Como é impossível para o homem obedecer totalmente a Deus, Jesus teve de viver durante toda a sua vida aqui na terra em total obediência a lei de Deus em nosso favor (Fp 2.8), “de modo que os méritos positivos de sua obediência perfeita pudessem ser atribuídos a nós” 19(Rm 5.19). Isso é o que chamamos de obediência ativa.

b) A obediência passiva
      
Este segundo termo ressalta que “Cristo tomou sobre si os sofrimentos necessários para pagar a penalidade pelos nossos pecados”,20 como havia sido profetizado em Isaías 53.3 sobre a vinda do Messias, o qual seria um homem de dores e experimentado no sofrimento. Hebreus 5.8-9 diz-nos que mesmo sendo Filho, aprendeu a obediência por aquilo que padeceu. E tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem.

Os sofrimentos durante toda a vida de Jesus como fraquezas, limitações, tentações, rejeição e oposição dos homens, a dor psicológica de suportar o pecado e a culpa como se Ele mesmo pecasse, a dor física da crucificação, o abandono do Pai na cruz, a dor de suportar a ira de Deus contra o pecado e o pecador e por fim a morte, é que fizeram de Jesus o perfeito salvador.

Por outro lado, a obra da expiação tem inúmeros efeitos sobre nós. Veremos agora os 4 efeitos da expiação, os quais eu mencionei anteriormente que são o sacrifício, a propiciação, a reconciliação e a redenção. “Estes 4 termos mostram como a morte de Cristo satisfez as 4 necessidades que temos como pecadores”.21

a) Sacrifício: Cristo morreu em nosso lugar como substituto e pagou a penalidade da morte que merecíamos por nossos pecados contra Deus (Hb 9.26). 

b)Propiciação: Para que a ira de Deus contra o pecado e contra nós (pecadores) fosse aplacada e removida, Cristo morreu em nosso favor, propicio a nós (1Jo 4.10).

c) Reconciliação: Para que a parede que nos separava de Deus fosse derrubada (Ef 2.14-18), e a barreira que nos impedia de ter comunhão com Deus fosse removida (Is 59.2), era preciso que alguém intervisse em nosso favor, nos reconciliando novamente com Deus (2Cor 5.18-19).

d) Redenção: Como pecadores somos escravos do pecado e de satanás”22 (Jo 8.34; Rm 6.16; Ef 2.2-4), por isso era necessário que alguém nos redimisse dessa escravidão.

Redenção traz a idéia de um resgate, que é “o preço pago para redimir alguém da escravidão ou do cativeiro”23. É de vital importância ressaltar que Cristo não pagou resgate algum a satanás e muito menos ao pecado, e também não digo que foi a Deus, porque não foi Ele que nos manteve na escravidão, mas satanás e nossos pecados.

Cristo comprou e buscou a redenção, e, portanto, nos “é suficiente saber que o preço foi pago e aceito por Deus (a morte de Cristo), e o resultado foi termos sido redimidos da escravidão”.24 

4. A extensão da expiação

A pergunta crucial que envolve a síntese da extensão da obra expiatória é esta: Por quem Cristo morreu? “No lugar de quem Cristo se ofereceu como sacrifício”25? Mediante a esta pergunta, existem inúmeras passagens nas Escrituras referente à morte de Cristo, onde é afirmado que a expiação “aparentemente” foi universal, ou que a morte de Cristo foi por todas ou muitas pessoas ou pelo mundo todo.

No entanto, se analisarmos detalhadamente todo o contexto em geral sobre a questão da morte de Cristo, veremos que a expiação não foi universal, mas foi limitada ou particular. Em outras palavras, Jesus não morreu por todas as pessoas e nem pelo mundo inteiro.

Embora o sangue de Jesus derramado na cruz fosse “suficiente para cobrir os pecados de todos os homens e para satisfazer a justiça de Deus contra todo o pecado, ele efetua a salvação somente aos eleitos”.26 Aexpiação se reduziu ou foi eficazmente aplicada somente para algumas pessoas a quem Deus escolheu salvar.

Outro fator importante que envolve a extensão da expiação é que ela também abrange os não eleitos, que desfrutam dos benefícios da morte de Jesus, no que se refere as bênçãos físicas e materiais, dentre outras coisas (Mt 5.45). Isto é o que chamamos de “graça comum” ou “providência geral”. 

Outra questão agora está em pauta – Como interpretar as diversas passagens onde é mencionado que Cristo morreu por todas as pessoas e pelo mundo todo?

Tanto os cristãos arminianos quanto os cristãos reformados concordam que “o sangue de Cristo é suficiente, em valor, e que sua morte vicária é de valor infinito aos olhos de Deus, e é eficiente ou eficaz somente em relação aos eleitos. Atualmente, o ponto de vista arminiano da expiação universal não é sustentável.

Não obstante, a única saída dos arminianos para dizer sobre os que rejeitam a Cristo é dizer que a vontade de Deus é frustrada pelo homem, porque Cristo, ao que pressupõe, morreu por todos os homens aos quais Deus quis salvar, porém, não pôde fazê-lo”27, devido ao “livre arbítrio” que o homem possui em escolher ou não se voltar para Deus.

Todavia, sabemos pelas Escrituras que só Deus possui o livre arbítrio, e que esta linha de interpretação contradiz totalmente a doutrina da eleição. Vamos analisar algumas passagens onde os termos muitos e mundo aparecem e comprovar que estes a textos, apesar de favorecer outra interpretação, falam acerca da expiação limitada.

Senão vejamos: (Is 53.4-12; Mt 26.28; Mc 10.45; Jo 1.29; Jo 3.16; Rm 5.7-10; 1Cor 15.3; Gl 1.3-4; Tito 2.14; 1Jo 2.1-2; Hb 2.9; Ap 5.8-9; Mc 4.11-12; Jo 10.11,15, 26-28; Jo 17.6-9, 19-21...)

Conforme estas passagens e várias outras, vemos que “a bíblia utiliza expressões que são universais em forma, mas que não se referem a todos os homens no sentido distributivo e inclusivo.

Palavras como mundo e todos, expressões como cada um e todo homem nem sempre significam, nas Escrituras, todos os membros da raça humana”;28 mas sim, à universalidade e diversidade dos eleitos espalhados por todo o mundo, e à inclusão dos gentios também na obra da expiação.

Nessa mesma linha de pensamento, Ronald Hanko afirma que “o que tais passagens ensinam é que Cristo morreu por todos os homens sem distinção, não por todos os homens sem exceção. Em outras palavras, tais passagens ensinam que Cristo morreu por todos os tipos de homens (1Tm 2.6a), por todos que estão nEle (1Cor 15.22), ou pelo mundo de seu povo, isto é, por seus eleitos de todas as nações”.29

Por isso cai por terra a teoria de que Jesus morreu por todos os homens mesmo que todos não sejam salvos. Seria o mesmo que dizer que a obra de Cristo no projeto da salvação não foi perfeita, sendo assim ineficaz, e que o sangue de Jesus foi derramado em vão por alguns que não o querem. Contudo, seria necessário acrescentar algo a mais para ajudar a Jesus, a saber, a livre escolha do homem. 

Não obstante, a expiação limitada não é um meio que pode vir tornar possível a salvação, mas sim, é um meio que fez, faz e fará possível a salvação de todos os eleitos que foram predestinados para ela por nosso Deus e Pai. Aleluia!

Conclusão
  
5. A perfeição da expiação

Cristo não veio fazer os pecados expiáveis; Ele veio para expiar pecados!

Hebreus 1.3 – Depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da majestade, nas alturas.

Cristo não veio para fazer Deus reconciliável, Ele reconciliou Deus conosco por meio de seu sangue.30

“A expiação é uma obra completa, jamais repetida ou passível de repetição”.31 “Ela é a provisão eterna do amor no coração de Deus”.32 Ela não força nem constrange o amor de Deus; antes, o amor de Deus constrange a expiação, que se fez instrumento para a realização do propósito determinado do amor”.33

A obra expiatória foi perfeita em todos os aspectos e alcançou o seu objetivo. Cristo não morreu por todos os homens! A expiação é limitada! A redenção é particular! Só a noiva eleita de Cristo (a igreja) é o objeto do amor de Deus no plano da salvação”.34  

Efésios 5.25b – Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela...

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Notas:
1.Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism 
2. Duane E. Spencer, TULIP, Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrituras, pág 111-112, Parakletos.
3. Teologia sistemática Wayne Grudem, pág 259.
4. Gise J. Van Baren. Expiação limitada.
5. Dicionário Priberam da língua portuguesa.
6. Gise J. Van Baren. Expiação limitada.
7. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 12.
8. Louis Berkhof. Teologia sistemática, pág 386.
9. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé.
10. Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 271.
11. NVB.  
12. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 13.
13. Ibid.
14. Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 272.
15. Turretin, Francis. Institutio Theologiae Elencticae, Livro XIV, Q.X; Thornwell, James Henley. “The Necessity of the Atonement”, em Collected Writings, vol II (Richmond, 1886), pág 205-261; Stevenson, George. A Dissertation on the Atonement (Filadélfia, 1832), pág 5-98; e Hodge, A.A. The Atonement (Londres, 1868), pág 217-222.
16. Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 109-110.
17. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 19.
18. Ibid, pág 21.
19- Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 273.
20. Ibid, pág 274.
21. Ibid, pág 278, 279.
22. Ibid.
23. Ibid.
24. Ibid.
25. R.C. Sproul. Eleitos de Deus, pág 152.
26. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 55.
27. Duane Edward Spencer. Artigo sobre a Expiação Limitada.
28. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 53.
29. Ronald Hanko. Doctrine according to Glodiness, Reformed free publishing Association, pág 155-156.
30. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 47.
31. Ibid.
32. Ibid, pág 48.
33. Hugh Martin. The Atonement: in Relations to the Covenant, the Priesthood, the Intercession o four Lord (Edimburgo), pág 19.
34. Duane Edward Spencer. Artigo sobre a Expiação Limitada.

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Fonte: Bereianos
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Por Denis Monteiro


Será que o estudo de Teologia Sistemática pode ser aplicado em nossos dias? Como colocar em prática questões teológicas? Como o estudo de escatologia, em especial o Milênio (na visão amilenista), pode ser aplicado em missões? 

Neste artigo procurarei mostrar que a visão amilenista existe algo bem mais prático para o evangelismo. 

Como entender Apocalipse 20.1-4?

Antes de tentar entender sobre a prisão de Satanás e o reinado de mil anos, devemos entender primeiro como interpretar o Apocalipse. 

O sistema de interpretação mais satisfatório, para mim, é aquele conhecido como paralelismo progressivo, defendido pelo Dr. Hendriksen em seu livro Mais que vencedores, e pelo Rev. Leandro Lima, em seu livro Razão da esperança, ambos da Editora Cultura Cristã. 

De acordo com essa interpretação, o livro do Apocalipse consiste em sete seções que se desenrola paralelamente, cada uma delas retratando a igreja e o mundo, desde a época da primeira vinda de Cristo até o tempo de sua segunda vinda. 

A primeira seção: Cristo no meio dos sete candeeiros (Ap 1 – 3); Segunda seção: A visão do céu e dos Sete selos (Ap 4 – 7); Terceira seção: As sete trombetas (Ap 8- 11); Quarta seção: O Dragão perseguidor (Ap 12 – 14); Quinta seção: As sete taças (Ap 15 – 16); Sexta seção: A queda da Babilônia (Ap 17 – 19); Sétima seção: A Grande consumação (Ap 20 – 22). 

Sendo assim, agora podemos adentrar em Apocalipse 20.1-4. Tentarei responder algumas perguntas: Satanás está preso? Por que o Milênio não é literal? 

A prisão de Satanás e os mil anos

Entendemos biblicamente que o Diabo, a antiga serpente, está amarrado. Em Apocalipse 20.1-3 nos é dito que um anjo prendeu Satanás. Para tentar entender o impedimento da atuação de Satanás, vejamos a história de Jó. 

Jó 1.6-12 relata um livre acesso de Satanás para se achegar à presença de Deus junto com os “filhos de Deus” (v.6). E, tendo este livre acesso, ele acusou Jó. Mas, segundo Jesus Cristo, advertindo seus discípulos que voltavam do campo em grande alegria, disse que Satanás foi expulso do céu como um raio (Lc 10.18,19). 

A prisão de Satanás tem a ver com a primeira vinda de Cristo. Estes textos bíblicos comprovam isso:
• “Ou, como pode alguém entrar na casa do homem valente, e furtar os seus bens, se primeiro não maniatar o valente, saqueando então a sua casa?” Mt 12.29
• “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso...” Jo 12.31,32. 
• “E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.” Cl 2.15
• “... pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo;” Hb 2.14
• “... Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo.” 1Jo 3.8 
• E em Apocalipse 12.5-17 nos mostra que a expulsão de Satanás foi resultado da coroação de Cristo.

Por isso, entendemos que desde a vinda de Cristo com a sua consumação na cruz, Satanás foi amarrado. Claro que não devemos entender isso de forma literal, mas simbólica. Pois, como um espirito poder ser preso em cadeias literais? 

Logo, após a vinda de Cristo e a prisão de Satanás, nós entendemos que o milênio é agora na época da igreja, segundo a interpretação descrita acima no paralelismo progressivo. Mas, este reinado não é na terra, como se ensina em outras interpretações. Vejamos o texto: 

E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos.” Ap 20.4

Entendemos que o termo alma não quer dizer um corpo humano, mas como o próprio João mostra, são as almas daqueles que foram mortos por causa do testemunho de Cristo. Há também referência a tronos. Em todo o Apocalipse, tanto o trono de Cristo, quanto o seu povo sempre estão no céu. Assim, os versículos 4-6 formam a visão do reinado milenar dos cristãos com seu Salvador, após eles partirem desta vida e enquanto esperam a segunda vinda de Cristo, a ressurreição e a felicidade eterna.  

A prisão de Satanás, o Milênio e missões

Simon Kistemaker observa:
Por toda a era veterotestamentária, somente a nação de Israel recebeu revelação de Deus (Rm 3.2).¹ 

Deus não revelou sua Santa Palavra para todos os moradores da terra, como observou Kistemaker acima, mas somente ao povo escolhido. Na Antiga Aliança o não judeu tinha que vir até Jerusalém para fazer parte do pacto e/ou participar das festas religiosas, mas não vemos isso na Antiga Aliança. O que vemos, são exceções: Raabe salva, Rute  confessando ao Deus Todo Poderoso e um Judeu pregando para uma nação ímpia: Jonas e os ninivitas. Mas Deus revelou em sua Palavra, por intermédio dos profetas, que os gentios seriam convidados a participarem do pacto na Nova Aliança (Rm 9.25-2; Cf. Os 1.10; 2.23). 

Na cruz Satanás é preso, mas não totalmente, pois o texto nos diz que ele está impossibilitado de enganar as nações [gentios] (Ap 20.3), não diz que ele está preso e ponto final. Como vimos acima, antes do ministério de Cristo, Israel era a única nação chamada entre todas as nações. No entanto, louvado seja Deus! Cristo amarra o valente e saqueia a sua casa (Mt 12.29), e no Dia de Pentecoste o Espirito Santo é derramado sobre toda carne (At 2.17), o que significa que o Evangelho é para todas as nações, e não apenas para os judeus. 

A era das missões mundiais havia começado e a obra enganadora de Satanás havia chegado ao fim, como disse o Senhor: “Livrando-te deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio. Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26:17-18). As portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, disse Jesus a Pedro. Toda autoridade, tanto no céu como na terra, fora dada a Cristo e, por isso, Cristo nos ordena a pregar e fazer discípulos em todas as nações.

Desde o inicio da era Cristã Satanás está preso, impossibilitado de impedir o avanço do Evangelho por todas as nações, dentre elas, os eleitos serão alcançados e serão salvos. Por isso, não podemos negar a nossa responsabilidade de pregar o Evangelho a qualquer pessoa e em qualquer lugar, porque “hoje é o tempo aceitável, eis aqui agora a salvação” (2Co 6.2), “se ouvirdes hoje a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hb 3.7,8). Não haverá chance para pregação e salvação após a vinda de nosso Senhor, porque o tempo é HOJE. 

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Nota:
1 - Simon Kistemaker. Apocalipse. 2004: p. 673
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Fonte: Bereianos
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Por Sam Storms


Porque os arminianos wesleyanos afirmam a eleição condicional, enquanto os calvinistas afirmam que a eleição é incondicional? A resposta é a graça preveniente. De acordo com essa doutrina, em uma ação sobrenatural de graça e misericórdia, Deus restaura a todos os seres humanos o livre-arbítrio perdido na queda de Adão. A graça preveniente proporciona às pessoas a capacidade de escolher ou rejeitar Deus.


(...) A graça preveniente apenas possibilita a fé salvadora, mas é o próprio indivíduo que faz com que ela seja real. Então, ainda precisamos perguntar: “Quem, em última análise, é responsável por uma pessoa vir a ter fé e outra não?”. No sistema arminiano, a resposta é a própria pessoa, e não Deus. 

(...) O arminiano sustenta que Deus prevê tanto que alguns crerão quanto que outros não crerão em Cristo em resposta ao Evangelho. Ele também afirma que Deus sabe por que eles respondem com crença ou descrença, pois Deus é onisciente e conhece os segredos e as motivações internas do coração. Deus também conhece aquilo que, na apresentação do Evangelho, terá êxito em convencer alguns a dizer “sim” e o que não terá êxito em persuadir aqueles que dizem “não”.

A pergunta, então, é: se Deus realmente deseja que todos sejam salvos como sustenta o arminiano, e se Ele sabe o que entre os meios de persuasão contidos no Evangelho podem levar as pessoas a responderem “sim”, por que Ele não orquestra a apresentação do Evangelho de tal maneira que ela tenha êxito em convencer todas as pessoas a crerem? Não há dúvidas de que o Deus que conhece perfeitamente cada coração humano é capaz de criar um mundo no qual o Evangelho teria êxito em todos os casos. E se Deus desejou que todos sejam salvos da maneira como o arminiano sustenta, por que não levou todos eles a salvação? 


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Fonte: Texto extraído do capítulo 2 da obra Escolhidos: Uma exposição da doutrina da eleição.
Compilado por: Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

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